12 de janeiro de 2019

MENINA VESTE ROSA??


Quem me conhece um pouco, sabe que eu não ia conseguir ficar sem falar neste assunto

Por terras de Vera Cruz reina a polémica.
Se a eleição de Bolsonaro já lançava contestação, a sua ministra Damares Alves resolveu fazer-lhe um pouco de concorrência e, digamos, que não foi por um bom motivo, também.
Esta senhora, supostamente Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do novo governo, um conjunto de substantivos que não parece representar da melhor forma, veio anunciar que o Brasil entrou numa ‘nova era:
Menino veste azul e menina veste rosa!’ (?????)
Será que alguém lhe pode dizer que isso não é uma ‘nova’ era?
Mas sim a era que… já era?
Que as distinções de género são algo muito ‘velho’, muito ‘antigo’, que queríamos ver extintas e não alimentadas??
A dita senhora veio defender-se que o que pretendia dizer era que ‘defendiam a identidade biológica das crianças’…
Pois.


E qual é a importância da cor da roupa para o desenvolvimento das crianças?
E será que elas não podem ter liberdade de escolher as cores com que se identificam?
Será que aquele menino que veste rosa não tem o direito de deixar de ser ridicularizado na escola?
Somos todos tão diferentes, e tão iguais, um arco-íris de cores maravilhosas, para quê nos reduzirem a apenas duas?


Nem tudo o que é ‘feminino’ é só para meninas, nem tudo o que é ‘masculino’ é só para meninos.
Continua a ser difícil, seja para os pais em casa, seja para os educadores nas escolas, pedir às crianças que pensem fora da ‘caixa’, se depois grande parte do mundo em seu redor, inclusive estes ‘líderes’, insiste em manter os preconceitos, a intolerância, a discriminação.
Pessoalmente tive a felicidade de ter uns pais que não me limitaram as cores, nem os brinquedos, nem a imaginação. Brinquei com bonecas sim, mas também joguei – muito! – à bola, brinquei com carrinhos, joguei ao berlinde…
E tudo isso faz parte, ou devia fazer, do desenvolvimento de cada criança, sem limites impostos à partida.
A ideia de que só as meninas podem gostar de princesas, ou só os meninos podem gostar de carros, ou qualquer outro tipo de imposições de género, podem causar distúrbios, tanto na infância, como na adolescência, e até mesmo já como adultos.
Talvez a dona Damares esteja a esquecer-se que a frase ‘menino veste azul e menina veste rosa’ não é apenas uma frase. É um retrocesso, é uma incomplacência, um desvario sem sentido.


É dela também a frase: ‘Se a gravidez é um problema que dura só nove meses, o aborto é um problema que caminha a vida inteira com a mulher’.
Primeiro a gravidez não deveria ser um ‘problema’, mas sim algo decidido e escolhido pela mulher; segundo: o aborto também.
E ao que chamará a um filho não desejado? A um filho resultante de uma violação, por exemplo?
Qual será o ‘problema’ que esta senhora prefere?
Pelo que já se adivinha, até por algumas insinuações, o direito da mulher decidir vai começar a diminuir naquele país.
E então o ‘problema’ será outro.
Em Portugal o aborto foi legalizado em 2007, pelo que desde essa data que é feito em lugares adequados e seguros, evitando mortes, a esterilidade, e outras consequências que surgiam com frequência.
Infelizmente esta ‘nova era’ no Brasil parece alimentar-se da ignorância histórica e científica, e até mesmo da iliteracia, da população.


Veja-se por exemplo o velho preconceito: ‘Menino veste azul e menina veste rosa’.
Vamos recuar um pouco na História:
No inicio e durante séculos, os corantes para tecidos eram raros e dispendiosos, pelo que as crianças – de ambos os géneros! – usavam vestidos brancos até aos 6 anos de idade.
Foi já no século vinte que os tons pastel começaram a ser associados à roupa infantil, entre eles o rosa e o azul. Mas não havia imposição de norma relativamente ao sexo da criança, como se verifica hoje.
No entanto, – surpreendam-se os masculinistas! – e pelo contrário, existiam revistas de moda conceituadas que aconselhavam o rosa para meninos e o azul para meninas, explicando eles: porque o rosa era mais ‘forte e decidido’ e o azul mais ‘delicado e amável’.


É verdade, muda a palete, mas o machismo é o mesmo!


Seguiu-se a força do poder comercial, e algumas lojas norte americanas dedicaram-se a fazer uma prospecção da ‘cor para menino’ e da ‘cor para menina’. Parece que o suposto estudo foi inconclusivo e três lojas recomendavam rosa para meninos, e outras três, para meninas. Uma última recomendava rosa para ambos, sem distinções.
Parece que o rosa só se estabeleceu de vez como uma cor feminina na década de 1980. Porque, – e espantem-se agora as femininistas! – consta que foi sugerido precisamente no sentido anti-feminilidade do movimento de libertação das mulheres: o uso do cor de rosa seria para contrariar as normas!
Interessante, não?
(Se a Dona Damares descobre!...)


Pelos estudos já realizados, parece não haver preferência por qualquer uma das cores, a nível de género, pelo que posteriormente foi o marketing que impôs essa ‘norma’ já que é maior a eficácia na venda de um produto, quando este é direccionado separadamente para homens e mulheres.
Concluindo, quando aprofundamos um pouco, a discussão não é sobre a existência ou não de diferenças de género, que existem óbviamente, mas sim sobre a obrigatoriedade de aceitar um conjunto de artificialidades socialmente construídas.

A discussão, como sempre, é sobre defendermos a sociedade que queremos.




Artigo que publiquei no meu Cantinho:
 

 

 

 

1 de janeiro de 2019

ABÓBORAS !



As abóboras têm algo de poético, mas assim no sentido inverso…

Não é à toa que foi escolhida uma abóbora para se transformar em carruagem da Cinderela.

Não é à toa que são as ‘caras’ assustadoras e ao mesmo tempo divertidas, que iluminamos no Halloween.

Elas têm qualquer coisa de estranho e misterioso…

Lembro-me que a minha mãe me contava também uma história engraçada sobre elas.
 
Falava de um homem que conduzia uma carroça cheia de abóboras.
A cada solavanco que a carroça dava, ele olhava para trás e via que as abóboras estavam todas desarrumadas. Então ele parava, descia da carroça, e colocava-as novamente no lugar.
Mas, mal reiniciava a sua viagem, e dava outro solavanco, tudo se desarrumava novamente.
O homem desanimava e pensava que nunca ia conseguir terminar a sua viagem!

Foi então que passou por ele outra carroça cheia de abóboras.
Reparou que o homem que a dirigia seguia em frente e nem olhava para trás.
As abóboras desarrumavam- se, mas organizavam-se sozinhas no solavanco seguinte.

Compreendeu que, se dirigisse a carroça na direcção para onde queria chegar, os próprios solavancos da carroça acabariam por fazer com que as abóboras se arrumassem nos seus devidos lugares.

E a nossa vida é como esta carroça de abóboras: às vezes parece que nada corre bem e as coisas não se ‘arrumam’.
Desesperamos e queremos parar o caminho cheio de solavancos…
Mas se decidirmos seguir em frente, sejam quais forem os percalços, a nossa vida acaba por 'arrumar-se', naturalmente.

Quando termina um ano e começa outro, fazemos sempre um balanço e por vezes este nem sempre é brilhante, ou pelo menos não tanto quanto queríamos.

Talvez por isso me lembrei das histórias com abóboras, pois um dia elas vão continuar a ser ‘carruagens’, como na história da Cinderela, ou vão se ‘arrumar’, se tivermos a coragem de seguir em frente, com determinação, sem olharmos para trás.

Um feliz ano novo para todos!

Artigo publicado no site Bom Dia:

 
 
 
 

25 de dezembro de 2018




 
Para a colectânea de Natal da Chiado Editora:


'Gato Preto':

Era um pequeno gato preto, abandonado naquele beco, frio e escuro.
Escondia-se debaixo de uma caixa de cartão, mas o inverno começava a trazer a chuva,
e adivinhava que aquele abrigo logo deixaria de o aquecer e proteger.
Mas o que podia fazer? Era um gato preto...

Sujo, arisco e preto.
E ninguém gosta de gatos pretos.
Via as pessoas mudarem até de passeio, só para não se cruzarem com tal criatura azarenta.
Triste sina a sua. Azar sim, mas o seu.
Tantas cores no mundo e tinha logo de ter nascido de pelo escuro e negro.
Ouvira já a história que tinha sido um alto senhor da igreja que há muito, muito tempo,
decidira que todas as mulheres misteriosas, que tivessem um gato preto, eram bruxas.
Elas eram queimadas na fogueira, e os seus gatos também.
Até arrepiou o pelo. O pelo preto.
Era muito difícil, para um pequeno gato como ele, entender isto...
Então os senhores da igreja não eram bons?
Não deviam praticar o bem?
Não deviam proteger as pessoas e os animais, fossem eles diferentes ou não?
Com certeza tinha percebido mal...
Como podia ele, pequena e indefesa criatura, dar azar a alguém?
Nem sequer era assustador...
Por vezes, quando passava à frente de uma loja daquele beco, via a sua imagem refletida no vidro e imaginava-se uma pantera.
Uma pantera negra. Grande, perigosa, forte...
Porque é que uma pantera não dá azar?
Também tem o pelo preto, é um felino...
E ela sim, é assustadora!
Mas não, apenas ele, um pequeno gato abandonado, era azarento.
Ninguém gostava dele.
Estava tão cansado, tão triste, de viver sozinho naquele beco escuro...
Bem, naquela noite, até que não estava assim tão escuro. Espreitou por baixo da caixa de cartão e apercebeu-se que vinha uma nova claridade da rua.
Pata ante pata atreveu-se a sair daquele abrigo e, rasteirinho, foi até à saída do beco.
Pestanejou duas vezes com o brilho que viu.
Luzes cintilavam, sinos dourados acendiam e apagavam,
as montras mostravam pinheiros decorados com fitas vermelhas, azuis, e outros brilhos,
as pessoas carregavam embrulhos decorados…
O que se estava a passar? Que festa era aquela?
Por todo o lado estava escrito Feliz Natal. O que seria esse tal ‘Natal’?
De repente sentiu uma pequena mão a agarra-lo.
Tentou debater-se e esperneou, esperneou,
até deparar com aqueles olhitos brilhantes que encaravam os seus.
Olhos de criança. Haveria algo mais puro?
Desistiu de se debater e rendeu-se aquele abraço caloroso.
Nunca sentira um carinho assim.
A menina sorriu para ele, e os pais sorriram para ela.
Então viu-se a ser levado naquele pequeno colo, para longe do beco escuro,
para longe da caixa de cartão.
Agora tinha uma família. Finalmente tinha um lar.
Seria aquilo o ‘Natal’?
Deixou-se adormecer, tranquilo e seguro, naquele embalo de um caminhar para casa.
Mas ainda ouviu a sua nova amiga sussurrar:
´Vou chamar-te Pantera!´


 UM FELIZ NATAL PARA TODOS!
 
 
Ah! E se puder cuidar dele, com muito carinho e amor, este Natal adopte um Gato!

 

27 de outubro de 2018

BRANCA - Poema para a Antologia 'Entre o Sono e o Sonho' vol X

 


Foi a 21 de Outubro que a Chiado Editora fez mais um lançamento da Antologia de poesia Portuguesa Contemporânea "Entre o Sono e o Sonho", o Vol. X.
Esta obra reúne cerca de 1000 poemas. A cerimónia de lançamento teve lugar no Grande Auditório do Convento São Francisco, em Coimbra.

 
 
Desta feita participei com o poema ‘Branca’, uma analogia com a conhecida história, que dedico a todas as minhas amigas mulheres:

 

Branca
Vivia na floresta desencantada
Maçã envenenada que comeu
Sete vezes dera o seu coração
E nunca vira o seu reflexo
'Espelho meu, espelho meu...'
Ao primeiro amou sua inocência
Quimera infante que não cresceu
Ao segundo a sua severidade
Mas de tão zangado envelheceu;
'Espelho meu, espelho meu...'
Amou o mestre que a quis ensinar
Mas o amor não se fez aprender
Trocou-o por quem nada fazia
E no vazio se foi perder;
'Espelho meu, espelho meu...'
Conheceu o mais sensível
Mas as lágrimas foram duas
E até com o mais enfermo
As dores foram suas;
'Espelho meu espelho meu...'
Sorriu ao encontrar alguém feliz
Mas era só dele aquele fausto
Deixou a floresta desencantada
Abandonou o negro claustro;
E foi na montanha da neve
Que encontrou o caçador
'Espelho meu espelho meu...'
Agora refletes dois corações
Ele chama-a de Branca de Neve
...para sempre sem os sete anões.
 
 
 

24 de abril de 2018

Um Livro Num Dia



Mais iniciativa da Chiado Editora: 'Um Livro Num Dia'
Para comemorar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril, esta Editora montou um 'escritório' no Jardim Vasco da Gama, em Belém, em pleno Pavilhão Princess Maha Chakri (Pavilhão Tailandês). 
Ali, à vista de todos, seleccionou os contos dos autores e preparou um Livro, que às 19h distribuía. 


Este foi o meu conto:



O Livro Esquecido

Desceu por aquelas escadas de pedra, descalçou os sapatos e sentiu a areia, ainda morna, a abraçar os seus pés.
Era uma agradável tarde de inverno, a brisa soprava morna, mas o mar estava agitado. Tal como ela, por baixo daquela imagem serena, batia um coração inquieto, revoltado, em tempestade.
E era tarde. Tarde em todos os sentidos que o tempo tem…
Trocou a areia tépida pela água fresca e sentiu um arrepio chegar-lhe ao pescoço. Era como que um despertar da sua letargia, do seu sono, de um longo adormecimento. Uma lágrima nasceu e fugiu. Apanhou-a já por baixo do queixo.
Naquele momento sentiu que algo esvoaçava aos seus pés, como que uma borboleta a agitar inúmeras asas, mas presa ao chão… 
Era um livro.
Baixou-se, ajoelhou-se e pegou-lhe com todo o cuidado. A capa descolava-se, as folhas pareciam querer voar. Estava amarelecido, não pelo sol, mas pelo tempo. Por aquele outro tempo que tudo leva: cor, poema, vida, dor… Não, a dor fica.
- Desculpe… - uma voz masculina vinha por trás de si. Quase que saltou.
- Esse livro é meu – continuou ele, ao mesmo tempo que lhe agarrava na mão e a ajudava a levantar-se – Ou melhor, era da minha mãe. Ela gostava muito de vir lê-lo para aqui. E hoje, que a perdi, resolvi fazer o mesmo.
Dos seus olhos nasceram duas lágrimas. Mas as dele não fugiram. Passearam pelo seu rosto, deambularam lentamente pela pouca barba, seguiram pelo pescoço, e ele nada fez para as segurar.
- Eu também perdi a minha mãe – confessou a jovem, admirando a coragem dele – Ela também gostava de vir para esta praia, não para ler, apenas para… ‘sentir o mar’… Tinha tanta coisa para lhe dizer… e não tive tempo…
Ele sorriu ao sorriso triste dela.
Voltou a pegar-lhe na mão, mas desta vez para a fazer sentar-se na areia, ao seu lado.
E ali, à beira mar, folhearam o livro, esquecido e amarelecido, e leram em asas de borboleta.
E a brisa, como alma de dois anjos quentes, envolveu-os num abraço de saudade, murmurando um imperceptível e terno ‘adeus’…



8 de março de 2018

No Dia da Mulher vamos repensar a educação dos nossos filhos


Hoje é Dia da Mulher
O facto de ser necessário atribuir uma data a este género é, por si, já preocupante. Até porque todos os dias deveriam ser Dia da Mulher, Dia do Negro, Dia do Gordo, Dia da Pessoa com Deficiência, ... Dia de Todos. Porque se assim fosse era sinal que não existia descriminação nem #preconceito. Mas há.
Quando pensamos que certas ideias preconceituosas começam a estar no tempo e espaço que merecem, assim tipo Idade da Pedra, eis que nos deparamos com elas, mesmo à nossa frente, tal qual uma chapada na cara! E acordamos para a realidade... Estão na nossa casa, nas ruas, nas escolas.
Crianças com pais modernos, educados, supostamente 'evoluídos', têm na escola atitudes do mais básico preconceito, do mais cruel racismo, do mais intolerante #machismo.
Num estudo publicado recentemente pelo JN foi divulgada uma realidade preocupante: 56% dos jovens que namoram são vitimas de violência. Ou seja, mais de metade dos jovens tinham tido, pelo menos, uma relação onde tinha existido um acto violento. Este acto dividia-se entre violência psicológica (cerca de 18%), perseguição (16%), violência através das redes sociais (12%), controlo (11%), violência sexual (7%) e física (6%).
A investigação foi realizada pela UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta e contemplou um universo de 3163 jovens, com uma média de idade de 15 anos.
Foi revelado também que no ano passado a GNR recebeu mais de 500 participações relativas a violência física entre namorados e ex-namorados. Curiosamente, esta última foi maior.
O nosso Código Penal, dirigido ao crime de violência doméstica, contempla também as relações entre namorados, que é assim considerado crime público.

Ou seja, pode ser penalizado mesmo que a vítima não o denuncie. Mas a verdade é que, se esta não o fizer, quem o fará?
Apesar do número de queixas ter aumentado, uns tímidos 6%, continua a ser preocupante a falta de denúncia destes casos. Diz, quem realizou o estudo, que as vítimas temem as represálias dos agressores.
Outro factor preocupante é que uma em cada quatro vitimas considera 'aceitável' e 'normal' este tipo de violência, seja psicológica, física ou sexual. A pressão para terem relações sexuais é também encarada com naturalidade pela maior parte das jovens. Situações de controlo do parceiro, como serem 'proibidas' de saírem sozinhas, de usarem certo tipo de roupa, ou até de falarem com amigos, não são reconhecidas como violência por uma grande parte das jovens.
Há necessidade de lançar um alerta, seja aos pais, como aos professores e às instituições. Ninguém se deve colocar à parte destas situações. Toda a sociedade adulta é responsável pela mensagem, pela imagem e pelos exemplos que passa à geração seguinte e, atenção, tenham filhos ou filhas a mensagem tem de ser a mesma.
Alguma coisa está a falhar.
Falhamos nós, pais, que não damos muitas vezes os melhores exemplos; que toleramos que os nossos filhos tenham uma escola onde o mau comportamento não é punido; falha o sistema de ensino que sobrevaloriza a avaliação académica e desvaloriza o comportamento moral; falham os docentes que já há muito adoptaram alguma inércia relativamente à formação individual; falha a cultura de um País que é machista e preconceituosa...
Crianças vitimas de preconceitos, seja a nível sexual, de raça, ou de qualquer outro tipo, tornam-se infelizes na escola e com maus resultados. E por vezes não conseguimos aperceber-nos porque isso acontece.
A escola é o lugar perfeito para todas as crianças terem acesso a informações objectivas, democráticas e honestas. E esta informação estende-se à relação entre sexos opostos. Seria aqui o lugar privilegiado para a criança perceber que é ela quem vai definir a sociedade do amanhã. Se a luta deve começar em casa, deve também ser continuada na escola e logo no jardim de infância.
E não falo apenas numa disciplina, como Cidania. Estes são temas que podem perfeitamente ser inseridos nas disciplinas curriculares, se assim existir vontade. Existem países que já o fazem.
Lança-se algumas ideias:
Em Português, apreciarem textos onde consigam detectar a presença de preconceitos, darem a sua opinião e reflectirem sobre ela. Conhecerem mulheres influentes na cultura literária. Histórias de luta feminina, preconceito e violência. Pedir aos alunos que elaborem um texto sobre uma mulher importante nas suas vidas...
Em História comparar o estereótipo da mulher do século passado com a da actualidade. Aqui também o conhecimento das batalhas que as mulheres travaram ao longo dos tempos, para poderem votar, para poderem trabalhar, para terem os mesmos direitos que os homens, pode ajudar à consciencialização das crianças.
Nas aulas de Tecnologia, falando por exemplo das invenções femininas, tão importantes como o software de computador, o wireless, o frigorífico, os painéis solares, o colete à prova de balas, ou outras interessantes, como o jogo do Monopólio, a cerveja, a seringa, a máquina de fazer gelados...
A Filosofia dá inúmeras possibilidades de debate.
O Teatro possibilita a troca de papéis femininos e masculinos, a possibilidade de 'vestir' e encarnar outro sexo.
Educação Física deve permitir e incentivar equipas mistas, sejam de futebol ou dança. Professores que ainda insistem que os rapazes jogam à bola e as meninas vão fazer coreografias, devem ser afastados do sistema de ensino... Ok, fiquem, mas actualizem-se, por favor!
A luta tem de ser conjunta.
Iniciativas como a que a PSP teve, no Dia dos Namorados, são importantes, mas não chegam se forem isoladas. A operação 'No namoro não há guerra' ficou-se pelas escolas de Lisboa, procurando sensibilizar para a violência doméstica e para o bullying na internet.
Temos de fazer mais.
Ficam algumas dicas:
· Para os meninos, incentive a realização de tarefas como fazer a cama, lavar a louça e outros serviços domésticos;
· No caso das meninas, estimule a participação em actividades como jogar futebol ou outras tarefas ditas “masculinas”;
· Esteja atento ao comportamento dos seus filhos e não aceite atitudes machistas, preconceituosas ou racistas;
· Incentive brincadeiras colectivas, que envolvam tanto as meninas como os meninos;
· Procure conhecer a escola onde os seus filhos estudam, se está alerta, e pune devidamente, atitudes discriminatórias;
E, acima de tudo lembre-se, as crianças não seguem o que lhes dizemos, copiam o que fazemos!
Vamos pensar que um dia teremos realmente Dia da Mulher, quando a nossa filha, a nossa mãe, a nossa avó, forem tratadas com respeito e dignidade, sem sexismos de colegas, de filhos, ou mesmo de maridos.

E, mães, a maior luta está mesmo nas vossas mãos! Tenham coragem de a fazer.

13 de janeiro de 2018

Não ADOPTE este silêncio!


"Não adopto este silêncio" é uma causa que surgiu baseada nas peças de Alexandra Borges e Judite França, jornalistas de investigação.
Como se não bastasse o que constantemente vimos a conhecer sobre a adopção de Crianças no nosso país, acabamos agora por saber também que a coordenação é tão boa que se permite até o tráfico para o estrangeiro.
De acordo com a investigação, a IURD forjava provas de que os pais das crianças que pretendia eram toxicodependentes, seropositivos, e que não visitavam sequer os pequenos. O Tribunal nada fez para saber se tais factos eram verdadeiros.
Por vezes ouvimos casos de negligência parental, mas nestes casos, tal parece que não existia.
Esses meninos e meninas estavam num lar, chamado 'Mão Amiga', gerido pela IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) a partir de 1994, e, enquanto os pais pensavam que os seus filhos estavam lá provisoriamente, os pastores e bispos desta instituição 'adoptavam-nas' de forma ilegal.
Afirmado pelas jornalistas, foi assim com dez dessas crianças, mas, sem rasto, sabe-se lá com quantas mais poderá ter acontecido o mesmo...
Estamos na Europa, num país civilizado, com leis que são cumpridas, que cumpre os Direitos Humanos ou isto é um lugar à 'beira mar plantado' do terceiro mundo??
'Vendemos' crianças a quem tenha dinheiro e influência para as 'comprar'?!
E ninguém denunciava este 'catálogo' de venda para o Brasil?
Sabe-se, pela Renascença, que no ano de 2000 o Instituto Português da Criança teve suspeitas de corrupção deste Lar, mas a Segurança Social não deve ter feito grandes investigações pois arquivou o processo no ano seguinte.
Aliás, muitas das crianças foram enviadas para lá pela própria Segurança Social e pelos Tribunais. Como é possível, se o Lar funcionava de forma ilegal?!
Mas o certo é que funcionou, de 1994 a 2001, em plena Lisboa, aproveitando-se de famílias em dificuldades...
Por seu lado, a IURD defende-se, dizendo que está a ser vítima de uma campanha, falsa e difamatória. A verdade é que o delator é alguém da 'casa', Alfredo Paulo Filho, que deixou de pertencer à dita em 2013, segundo eles porque teve 'condutas impróprias'.
No entanto, existem mais testemunhos de pessoas envolvidas, incluindo as mães das crianças.
Mais uma vez temos de agradecer as estas jornalistas por divulgarem casos revoltantes, que, possivelmente, só seguem para investigação devido a esta força da Comunicação Social. Vinte anos depois são finalmente abertos dois inquéritos, da Segurança Social e do Ministério Público. Os crimes já prescreveram, mas as mães podem processar o Estado. Mas os seus filhos estão possivelmente perdidos para sempre.
'Um Segredo dos Deuses' a que eu chamaria mais 'um segredo dos diabos'.
Já não é de agora que é graças a este jornalismo que conhecemos o mundo negro da adopção. Algo que, de tão frágil, devia ser tratado com muito mais respeito, carinho e atenção.
Infelizmente, as crianças parecem estar ainda no fim das prioridades deste país...

O que podemos fazer?

Voltando à 'causa', apelo também: Não adoptem este silêncio! (sim, para mim também com o 'p')
Nem este, nem nenhum outro que implique calar perante o sofrimento e a injustiça.
Parece que andamos cada vez mais conformados com o 'sistema', que é 'assim' e nada fazemos para o mudar, ou mesmo denunciar. Se não o fazemos torna-mo-nos cúmplices.
Vá a http://peticaopublica.com/inviter.aspx?pi=PT87834 e assine a petição.
Mas não faça só isso.
A indiferença não fará a diferença...