
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

Aqui, no meu isolamento, volto a viajar por locais onde passei, sem supor, na altura, quão difícil seria voltar.
Felizmente, o meu telemóvel enche-se de fotografias com facilidade, o que ajuda a imaginação nestas viagens…
Hoje estou à varanda do Palácio da Regaleira, em Sintra.
‘O que faria alguém rodear-se de tanto misticismo?
De tantos rituais? De tantos deuses e fontes da sabedoria?
O que faria alguém construir um Poço dos Iniciados?’
Depois de uma visita à Quinta da Regaleira, confesso que todo aquele cenário me deixou impressionada e… curiosa.
Quando pesquisei para escrever o meu romance sobre a Serra da Lua, deparei-me com a prática de diversos rituais realizados em grutas, pois estas estão ligadas ao regresso ao útero materno.
Seria essa a intenção do seu criador? Criar uma ‘gruta’, com algum drama, algum teatralismo, para realizar este ritual?

Quem tinha poder naquele tempo, construía Palácios e Palacetes, algo que pudesse mostrar ao mundo como era grande a sua riqueza, como era sumptuoso o seu império.
Mas, Carvalho Monteiro, não mandou erguer apenas um Palácio neomanuelino, a celebrar a grandeza dos Descobrimentos, e da História de Portugal. Ele fez questão que este estivesse rodeado por jardins, grutas, capelas, e até um poço iniciático. Como se assim fosse o mundo ‘lá fora’: Um enredo misterioso, que se perde entre o cristianismo e o pagão, deuses que morrem e ressuscitam, sociedades templárias e maçónicas, cruzes de várias ordens, alquimias onde o espírito se materializa…
Esta Quinta passou por diversas mãos. Chamava-se Quinta da Torre, até ser adquirida pela Baronesa da Regaleira. Foi depois comprada por Carvalho Monteiro, que lhe deu a forma atual, segundo planos que encomendou ao arquiteto-paisagista Henri Lusseau e, posteriormente, ao arquiteto-cenógrafo Luigi Manini.
Foi este italiano que acabou por dar dimensão ao seu sonho. ´Aqui o Paganismo e o Cristianismo vão viver lado a lado,´ parece ter ordenado, ´aqui vai ser dada a Iniciação a todos os mistérios…´
Um caminho que vai das trevas até à luz, um jardim que não é obra do acaso, um poço que parece uma torre invertida, outras tantas torres na sua correta posição, lagos e cascatas, galerias e túneis, labirintos, e até um Poço Imperfeito.
Tudo baseado na crença que a terra é um útero materno, onde a vida nasce, mas também a sepultura para onde ela voltará.
E o batismo não foi esquecido neste ritual. Podemos encontrá-lo na Fonte da Abundância, é ela que nos remete para a purificação. À sua frente existe um espaço aberto com um grande banco em semicírculo.

Conseguem imaginar a sociedade dos finais do séc. XIX sentada naquele banco de pedra? A quem estaria reservado o trono? E o altar? Que rituais poderiam contar?
Até as árvores e plantas estão ligadas a lendas e mitos, escolhidas pelos seus nomes, poderes terapêuticos ou até mesmo pela longevidade.
Outra analogia ao útero materno está presente no Portal dos Guardiões. Sendo uma estrutura cénica que permitia a criação de um Teatro, era também uma entrada simulada para o Poço Iniciático. Leva a meio do poço e está guardada por dois tritões. No meio destes Guardiões encontra-se um búzio, que tem dentro de si… outro buzio.
Talvez para contrapor a todo este paganismo – não fosse a realeza contestar! – aparece a criação no ventre sagrado de Maria. Na Capela da Santíssima Trindade, a encimar a entrada, está representado o Anjo Gabriel a anunciar a Maria que espera um filho do Criador.
Manini começou como cenógrafo, mas como a polivalência não é coisa de hoje, esticou a sua atividade à decoração, à pintura, e à arquitetura. Projetou o Palácio do Buçaco, decorou a sala do Teatro São Luiz e o Museu Militar, entre outras obras que ‘cantavam’ os Descobrimentos portugueses.
Talvez assim se justifique a influência manuelina no Palácio e a influência cenográfica nos jardins.
Mas, porquê construir aquele poço?

Se o seu fim seriam as iniciações Maçónicas, o poço seria um local bastante ´teatral’ onde realizar o rito ligado à terra, de morrer e voltar a nascer.
Assim, quem descia os nove patamares do Poço Iniciático, ia descendo ao ‘inferno de Dante’, confrontando a sua alma, os seus pecados, as suas trevas, até encontrar ‘a luz’…
Nove patamares em espiral, com referências à Divina Comédia, que podem representar os nove círculos do Inferno, do Paraíso ou do Purgatório.
Saber quem saía por onde, talvez seja mais difícil, mas o significado figurativo pode dizer muito: há quem saia pelo Lago da Cascata, cheio de luz; e há quem termine no Poço Imperfeito, na escuridão.
Se Sintra é já por si a Serra Sagrada, o Monte da Lua, posso descrever a Quinta da Regaleira com um Reino Encantado.
Um reino que nasce no mundo subterrâneo e que faz a sua aparência à superfície, através de grutas e lagos. Mas que, de modo grandioso e dramático, com torres e fontes da sabedoria, volta às trevas. Atravessa um dólmen com uma pesada porta de pedra, de abertura secreta, desce nove pisos de conhecimento interior, e termina numa ‘rosa templária’.
A seguir, terá de encontrar a luz e a pureza da água.
Um batismo egípcio, num espaço cénico que recria o Éden, um jardim mágico repleto de deuses e lendas…
Sim, vou, decididamente, voltar.
Amiga

Não podia deixar de partilhar aqui uma oferta que recebi hoje.
Depois de estar algumas semanas em isolamento, tinha uma amiga à espera de me ver, de falar comigo, de desabafar.
Após algumas gargalhadas, que ainda lhe consegui arrancar, deu-me esta chapinha, que muito significou para mim.
Infelizmente, amizades assim, são cada vez mais raras.
19-01-2021

Beber, ou não beber... Eis a questão
Não sou nutricionista, mas as opiniões são tão contrárias que resolvi investigar.
A verdade é que, a partir de uma certa idade, talvez desde o liceu, que me lembro de começar a sentir uma certa rejeição a este alimento pelo meu organismo; principalmente em jejum. Ao deitar acabava por ser pacífico.
Já a minha filha, que é intolerante ao glúten, começou por ser também à lactose. Depois, teve uns poucos de anos que conseguiu tolerar a lactose, mas, ultimamente, com 13 anos, começou a rejeita-la novamente.
Pelo que diz a sua médica de gastro, apenas pode ingerir a manteiga ‘normal’ e queijos amarelos. O restante tem de substituir por produtos sem lactose.
Mas a que conclusões cheguei com a minha pesquisa?
O resultado de artigos sobre se devemos ou não beber leite é muitas vezes este:
Uma no cravo, outra na ferradura, dependendo a quem se pergunta. Por cada investigação científica que aponte para um papel benéfico ou nocivo, outra haverá para a desdizer.
Muito do que ingerimos tem vários “mas” na sua composição e, para vários especialistas, o leite não é excepção.
Muitos nutricionistas respondem de caras:
“Sim, recomendo: o leite materno. Mas apenas esse. O de vaca nem pensar! Não somos bezerros”.
Outros, confiantes, desmentem:
“Sim, devemos beber leite, tem muitas vantagens.”
Quais são, então, os argumentos contra o leite?
Os humanos devem beber leite humano, enquanto são bébés. E nada mais que isso, pois a proteína do leite de vaca é muito diferente da do leite humano, práticamente oposto.
Podemos sentir intolerância à lactose, pois o açúcar dos lacticínios fica por digerir no intestino delgado, podendo provocar diarreia, cólicas e gases.
Mais: o elevado teor de gordura saturada aumenta o risco de doenças cardíacas; o consumo de grandes quantidades de lactose aumenta as probabilidades de cancro no ovário; grandes quantidades de cálcio são um factor de risco para o cancro da próstata e também para a osteoporose - Sim, pasme-se quem bebe litros de leite para combater esta doença!
Outros nutricionistas acrescentam ainda: o leite tem uma série de compostos bioquimicos, hormonais e outros, que vão alterar as normais funções do nosso corpo; tais como aumentar os níveis de insulina. O seu consumo está associado ao aparecimento de diabetes tipo 1, à obesidade, e poderá também estar associado a doenças oncológicas.
E concluem: "Leite? Só mesmo se for para substituir alimentos piores, como refrigerantes, bolos e salgados!"
Mas outros nutricionistas defendem que a intolerância à lactose pode 'nem se notar' e que podemos até 'viver com ela', pois os beneficios compensam isso...
Esta opinião perturba quem defende o contrário - e até a mim mesma! - pois, mesmo não se manifestando, os efeitos poderão ser nocivos a longo prazo.
Então, pergunto eu, o que podemos tomar ao pequeno-almoço?
Parece que aqui também está presente a questão cultural, os nossos hábitos, pois ninguém nos impede de tomar um pequeno-almoço semelhante ao almoço ou ao jantar. Até porque os 'leites' alternativos, como os de soja, aveia, arroz ou amêndoa, nada têm de semelhante com o leite de vaca, além de terem açúcar adicionado, ou seja, tratam-se de 'substitutos culturais', não nutricionais.
São mais 'sumos' que 'leite'.
A nível de proteínas, o de soja talvez seja o mais semelhante, mas tem um grande contra: contém isoflavonas, substâncias semelhantes ao estrogénio, que podem criar desequilibrios, especialmente nas crianças. A maior parte é geneticamente modificada e tem muitos antinutrientes, como os fitatos.
Beber leite, particularmente ao pequeno-almoço, tornou-se um hábito tão adquirido, que será dificil quebrá-lo na população em geral. Com a agravante, ainda, que o seu consumo é de um grande interesse económico, mexendo com muitos grupos financeiros. O próprio Estado garante a distribuição de leite gratuitamente a todas as escolas públicas que o solicitem.
E não é só aqui, em Portugal.
Nutricionistas internacionais não conseguem compreender como o consumo desta bebida continua tão persistente, quando existem milhares de estudos contrários ao seu consumo.
Já em 1974, o Comité de Nutrição da Academia Americana de Pediatria, duvidava se se devia continuar a aconselhar o consumo de leite pelas crianças; mas, mesmo assim, o governo inundou os americanos com uma campanha, dessa data a 2014, onde personalidades conhecidas recomendavam o seu consumo.
Queres saber... Então o que fazes?
Bem, para começar temos de deixar de ser 'animais de hábitos' e colocar a saúde à frente de costumes culturais. Existem várias possibilidades de começar o teu dia com um pequeno-almoço saudável, como a fruta e os iogurtes. Pessoalmente como sopa.
Desde que deixei de beber leite logo pela manhã que os meus problemas de intestinos se reduziram considerávelmente. Parecia que ficava com um 'nó' durante o dia todo. 'Desatei-o' com uma sopinha simples, bem passada, com alguns legumes, e sem leguminosas, obviamente ;)
Quando a minha filha começou com problemas de estômago, a sua médica de gastro aconselhou de imediato a exclusão do leite da sua alimentação. 'Quando temos problemas digestivos, é a primeira coisa a fazer', assegurou.
E, a verdade, é que ela também nunca mais teve as crises de má digestão, vómitos e falta de apetite.
Bem, comer sopinha logo de manhã é que ainda não a consegui convencer, mas às vezes vai! :)
Talvez a solução esteja num meio termo. Beber um copinho de leite, de vez em quando, principalmente se for ao deitar, não deverá trazer problemas por aí além. Pode até ser um 'aconchego' que o teu estômago agradeça.
20-02.2021
Aguarela - Ternura

Não sei se vos acontece... eu adoro ver a minha filha a dormir
Por vezes sinto-me uma invasora daquele sono, daquele sonho
Mas não resisto à expressão tranquila e tiro uma fotografia
Claro que a gata abriu logo os olhos - a audição felina não falha! - no entanto deixou-se estar naquele abraço quentinho.
E, no meu isolamento, pintei depois este retrato
Chamei-lhe 'Ternura', pois foi o sentimento que primeiro me despertou.
22-02-2021
Participação no programa da SIC - Uma Noite de Sonho
Inspiração: Estrelas de Cinema
Chanel disse um dia: ‘A moda não é algo que existe apenas nos vestidos; ela está no céu, na rua. A moda está relacionada com as ideias, a maneira como vivemos, o que está acontecendo.’
E é o que vou tentar descrever aqui: uma História da Moda que conta o que se passa no mundo, o que de bom e mau refletiu e reflete; porque a inspiração de quem a cria é por vezes bem mais profunda do que muitos acreditam…
O vestuário surgiu como uma necessidade do ser humano se proteger do frio e do calor, mas ao longo dos tempos tornou-se muito mais que isso.
Dos 600 mil anos a.C. até hoje, sofreu grandes transformações e diferentes objetivos.
Hoje a Moda é o símbolo de uma época, marca uma posição, distingue uma personalidade.
Após tantos anos a cobrir-se com peles de animais, a criatividade na indumentária talvez tenha começado na Mesopotâmia com a tecelagem, onde os panos eram coloridos e enrolados à volta do corpo.
Os Egípcios e os Romanos já usavam o vestuário como uma forma de distinção de classes e afirmação de poder.
O tecido mais utilizado era o linho e, apesar das pinturas mostrarem imensas vestimentas brancas, as roupas coloridas eram as mais apreciadas. Os homens trajavam uma espécie de saia e as mulheres vestidos longos de alças.
Os mais abastados exibiam bordados e muitos acessórios, como colares, pulseiras, brincos, tiaras, braceletes e tornozeleiras. Estes podiam ser feitos de ouro e pedras preciosas; mas a faiança vitrificada era a mais popular.
Como o calçado era algo precioso, muitos andavam descalços e traziam as sandálias de couro na mão.
Os cosméticos eram também já bastante utilizados. Não foi à toa que Cleópatra, habilidosa politica e autora de um livro de beleza, conseguiu conquistar dois dos mais importantes generais romanos, Júlio César e Marco António.
Uma pesquisa realizada no Louvre com restos de cosméticos egípcios, datados do período 2.000 a.C. a 1.200 a.C., provou que já fabricavam os melhores produtos de beleza do mundo antigo.
O rímel, conhecido na antiguidade como "kohl", era um dos produtos de beleza mais importantes. A ele se devem os olhos amendoados das figuras egípcias pintadas nas paredes de templos e pirâmides.
Criaram também os químicos ancestrais do moderno "rouge". Por serem tão difíceis de manufaturar eram considerados de muita importância.
Também no tempo dos Romanos, e das suas lutas contra os povos ‘bárbaros’, se reconheciam uns e outros pela sua forma de trajar.
E na Idade Média? O que se passava no mundo?
A idade Média começou com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, e foi a época da consolidação do feudalismo e do domínio da Igreja.
Terminou no século XV, quando este feudalismo chegou ao seu auge e entrou em decadência, sendo substituído pelo sistema mercantilista e pelo poder da monarquia.
Foi muitas vezes apelidada de ‘Idade das Trevas’, pois grande parte da população foi dizimada por guerras religiosas, por pandemias como a Peste Negra, e por um estilo de vida muito pobre submisso à nobreza e ao clero.
No entanto, também foi o período da História responsável pelo desenvolvimento de instrumentos agrícolas, como o moinho e a charrua.
Outra herança medieval foram as universidades, que surgiram na Europa no século XIII. Foi também nesta era que se desenvolveram movimentos artísticos importantes, como o estilo Românico e o Gótico; e que viveram influentes filósofos.
Para a Moda, a Idade Média trouxe o botão como hoje é conhecido.
Até aqui utilizavam-se conchas.
Nesta altura a peça básica era uma espécie de túnica, mas este pequeno ornamento, tão prático e decorativo, veio alterar significativamente o vestuário.
Um exemplo disso foi o vestido feminino com duas mangas, umas simples e outras ornamentadas. Presas com botões, permitiam à mulher estar em casa com as mais modestas e fáceis de lavar e, quando saía à rua, trocá-las pelas mais sofisticadas.
Sim, porque na época, uma peça de roupa era um autêntico luxo!
No século XVI os botões eram um símbolo de posição social, quase do género ‘diz-me quantos botões tens e dir-te-ei quem és’.
Eram cada vez mais trabalhados e costurados em filas no vestuário.
Consta que D. Francisco I de França chegou a vestir uma espécie de jaquetão de veludo preto, com 13.000 botões!
Os sapatos pontiagudos foram outra moda peculiar da Idade Média.
Era assim que a classe europeia mais alta queria distinguir-se das demais:
Tecidos muito ornamentados, cores das mais extravagantes e sapatos do mais pontiagudo possível.
As pontas eram de tal forma compridas que não se sustentavam por si, pelo que os sapateiros da altura tinham de encher estas ‘polainas’ com materiais orgânicos como lã, cabelo, ou musgo.
Eram extremamente caros, demonstrando que quem os ostentasse possuía uma grande fortuna e que não necessitava de fazer nada que exigisse o mínimo de trabalho físico.
A loucura chegou a um ponto tão grande - pontas com cerca de 12 centímetros para além do final do pé! - que a corte do Rei Eduardo IV teve que proibir pontas com mais de 5 centímetros.
Foi também na Idade Média que surgiu o que é considerado o verdadeiro precursor do salto alto.
No início a função desses saltos era manter longe da lama - e dos detritos das ruas! - os tecidos frágeis e dispendiosos com que eram feitos os sapatos, tanto dos homens como das mulheres da nobreza.
Também por volta de 1400 apareceram na Turquia uns sapatos tipo plataforma, apenas para mulheres, chamados de ‘chopine’, que se tornaram populares por toda a Europa. Algumas plataformas chegaram aos 40 centímetros, obrigando as nobres a usarem bengalas, ou a precisarem da ajuda dos seus criados, para conseguirem ficar de pé.
No entanto, a moda do salto alto, teve como seus principais impulsionadores a rainha Catarina de Médici, insegura da sua baixa estatura; e o rei Luís XIV, que se envergonhava dos seus 1.60 metros de altura.
O pé, até início do século XX, era considerado um símbolo de castidade, - uma parte do corpo mais tentadora que os seios! - por isso devia ser protegido dos olhares cobiçosos.
O fabrico em massa só começou a partir de 1760, quando foi construída a primeira fábrica de sapatos em Massachusetts, Estados Unidos.
Com a revolução de 1791, os saltos perderam força, devido ao movimento de igualdade das classes sociais, já que só a nobreza poderia usá-los até então.
Voltou a ser moda apenas por volta de 1800, espalhando-se por toda América e com uma ampla variedade de opções, algumas mais confortáveis.
Outra curiosidade foi que, até a metade do século XIX, os dois pés do sapato eram iguais. O primeiro par feito com pé direito e pé esquerdo apareceu entre 1801 e 1822 na Filadélfia.
Voltando ao período histórico, a Europa, entre 1400 e 1500, fez a transição do mundo medieval para a chamada Era Moderna.
A Peste Negra tinha reduzido drasticamente a população europeia.
Assim, a chamada Renascença, trás consigo a celebração da vida mundana, o renascer.
Foi um movimento de reforma artística, literária e científica, que teve origem na Itália e se espalhou depois para o resto da Europa.
A burguesia ficava cada vez mais poderosa, formando um novo mercado de arte e cultura; e esta mudança de pensamento tirava Deus do centro do universo e colocava o Homem. Surge a procura pelo verdadeiro conhecimento, o racionalismo, o experimentalismo, o individualismo. A ciência é superior a todas as outras formas de entender a realidade, como a religião e a filosofia.
Surgem grandes génios da literatura como Shakespeare, Maquiavel, Luís de Camões; e grandes obras de Miguel Ângelo, Da Vinci, Rafael.
Começa a usar-se a tela e a Pintura a óleo, a perspetiva, as sombras.
O Renascimento foi também marcado por descobertas no campo da física, medicina, matemática, geografia e astronomia.
Agora sabemos que é a Terra que gira em volta do sol.
É também a época dos Descobrimentos.
Do Oriente chegam as sedas, os perfumes, as joias.
Chega também uma maior diferenciação entre o vestuário feminino e o masculino.
Até aqui, os vestidos eram peças utilizadas apenas por mulheres, académicos e membros da Igreja. Já a calça apertada se restringia somente aos homens.
Na Renascença, ambos os sexos, queriam evidenciar certas características do seu corpo:
Os homens usavam roupas que aumentavam os ombros, já as mulheres procuravam uma forma semelhante á do violão. A preocupação destas com as suas cinturas foi essencial para o surgimento do corpete, o antecessor do conhecido espartilho.
Se a extravagância tivesse um nome, seria o nome de um rei: Luís XIV, conhecido por querer enfatizar a superioridade da corte francesa através do seu vestuário.
Já no reinado de Luís XV foram as armações que davam volume às saias femininas as protagonistas da grandiosidade.
Os historiadores relatam até que era quase impossível duas mulheres partilharem o mesmo sofá, dado o volume das crinolinas.
Contra o estilo ‘Barroco’, sumptuoso e palaciano, nasceu, em Paris, o estilo ‘Rococó’.
Caracterizou-se, acima de tudo, pela sua índole aristocrática, delicada, elegante e sensual. Preferia temas sentimentais, cores claras e assimetria.
Ao século XVIII associa-se geralmente a expressão ‘Século das Luzes’, e foi marcado pela Revolução Industrial e pela Revolução Francesa.
O século XIX trouxe as invasões Napoleónicas, que duraram doze anos.
Verificou-se o crescimento da influência dos impérios Britânico, Russo, Alemão, Japonês e dos Estados Unidos. Trouxe também avanços científicos e invenções como a locomotiva, a fotografia, o telefone, o sabonete, o gira-discos, e o automóvel.
Descobriu-se a hereditariedade e a radioatividade.
A escravidão foi abolida em quase todo o mundo.
Desenvolveram-se desportos como o futebol e o rugbi.
Na moda, alguns jornais criticaram, outros elogiaram, mas, gradualmente, as armações foram saindo da ordem do dia. E o culpado foi aquele que é hoje considerado o ‘pai da alta-costura’, ‘le grand couturier’, Charles Frederick Worth.
Inspirado numa peça de vestuário feminina do final do século XVIII, a ‘polonaise’, ele substituiu a crinolina por pequenas ‘anquinhas’, também uma armação, mas mais confortável, que dava volume aos quadris e ao traseiro feminino.
A silhueta dos modelos de Worth dominou o período da Belle Époque.
O estilo de corpo ampulheta, com volume nos quadris e ombros, e cintura fina, dominou a época.
As roupas de Worth eram bastante apreciadas pelas mulheres porque, além de as tornar bastante elegantes, eram, ao mesmo tempo, peças confortáveis.
Também foi o primeiro a utilizar manequins humanos para as clientes poderem ver como ficava a roupa já vestida. A sua primeira modelo foi a sua mulher, que passeava as criações pelas ruas, observando as reações de quem com ela se cruzava.
Worth, que criou a palavra costureiro após uma adaptação de costureira, confecionava roupas para todas as ocasiões. Foi o primeiro a ver as suas peças serem copiadas e distribuídas em todo o mundo, e a assinar as suas criações.
Vestiu a Imperatriz de França, que se tornou sua cliente habitual, sempre disposta a exibir o talento inovador e excêntrico do seu costureiro favorito em diversos eventos oficiais.
A partir de 1880, a fama e o êxito de Worth eram de tal ordem que o costureiro servia às clientes que esperavam vez no seu atelier, paté de foie grass, lagosta e vinho da Madeira.
Foi ainda responsável pela introdução de um sistema de peças estandardizadas, onde cada uma delas poderia ser utilizada para diversas criações, assim como recorreu às máquinas de costura para fazer trabalhos com mais rapidez e qualidade.
O costureiro morreu em março de 1895, mas o negócio prosseguiu nas mãos dos seus descendentes diretos.
A partir daí vai surgindo um novo tipo de silhueta, mais natural, onde era utilizado apenas um suporte com algumas almofadinhas para melhorar o cair das saias. As armações metálicas foram saindo de moda, dando lugar às mais simples, feitas de tecido, até que deixaram mesmo de ser usadas, dando início a uma nova tendência do século XX.
Momentos conturbados, como a Primeira Guerra Mundial, exerceram também influência na História da moda.
Aliás, o século XX abrigou guerras nunca antes vistas, gerando embates que reverberam até aos dias de hoje.
Hitler, a guerra da Bósnia, da China, da Coreia, do Vietname…
Também o Apartheid na África do Sul, a corrida ao armamento, a aterragem na Lua.
O conforto passou assim a ser a palavra de ordem.
As mulheres, obrigadas a trabalhar durante a guerra, preferiam usar roupas práticas e confortáveis.
A falta de tecidos para a confeção de vestuário, exigiu que as saias fossem encurtadas até à altura dos tornozelos.
O estilo conhecido como “clochê” popularizou-se. O formato do chapéu permitia que ele se ajustasse perfeitamente ao corte de cabelo mais curto.

Quando falamos dos anos 1920 é impossível não mencionar o nome de Gabrielle Bonheur Chanel, a estilista símbolo da mulher moderna.
A relação de Chanel, ou Coco, como era conhecida pelos amigos, com a moda, começou em 1910, quando trabalhava numa loja de chapéus.
Em pouco tempo, Chanel tornou-se dona de duas lojas onde vendia também chapéus e roupas.
O icónico endereço nº 31 da Rue Cambon, da Maison Chanel, em Paris, permanece nos dias atuais.
A elegância e minimalismo que a definiam fizeram que o seu sucesso fosse tão grande que, em 1930, a sua griffe faturou algo como 130 milhões de francos.
Uma das suas inovações foi o ‘black dress’, um vestido preto de crepe com mangas compridas e justas. O preto era pouco usado na altura devido à sua associação com o luto. A Vogue chegou a chamar-lhe o ‘Ford da Chanel’, dado que o vestido básico tinha um forte apelo comercial tal como o Modelo T da marca automóvel.
Foi a vida humilde da estilista, deixada num orfanato aos 12 anos após a morte da sua mãe, que a fez criadora de uma imagem simples, com tecidos utilitários, e a levou ao sucesso.
Criou o cardigan saia-casaco, acessórios de pérolas e o imortal perfume Chanel nº5, na moda até hoje, assim como o conceito do estilo desportivo feminino.
Atrizes famosas de Hollywood eram vistas a usar os seus modelos.
Infelizmente, a Segunda Guerra Mundial não lhe foi tão auspiciosa, nem para ela, nem para a Europa, berço de grandes estilistas da época, e muitas maisons fecharam as suas portas.
Coco instalou-se no Hotel Ritz Paris com o seu novo parceiro, um oficial alemão, e a sua marca vendia apenas perfumes e acessórios.
Após a libertação de França do nazismo, a estilista foi presa, acusada de cumplicidade com os alemães; valeu-lhe Churchill, que interveio a seu favor. Livre, mas rejeitada pelos políticos franceses, refugiou-se na Suíça.
Só voltou a Paris em 1954.
Recebeu o Fashion Oscar em 1957, criou os uniformes para a Olympic Airlines em 1969, e ainda confecionava peças de vestuário para a sua marca quando faleceu em 1971. A Casa Chanel continua o seu sucesso até aos dias de hoje, na família Wertheimer, que comprou toda a empresa.
Quem foi apontado como responsável pelo renascimento de Paris como centro da
moda internacional, no pós-guerra, foi Christian Dior. Dono de um império luxuoso, as suas criações, em tecidos extravagantes, contrastavam com o minimalismo de Chanel. O ‘New Look,’ que lançou em 1947, saias rodadas, ou plissadas, pelo tornozelo, vestidos volumosos com ombros à mostra, casaquinhos de seda e cinturas definidas, marcaram a História da moda.
Em 1959 Pierre Cardin criou o prêt-à-porter. A sua primeira coleção foi uma parceria com a loja Printemps. Ou seja, pela primeira vez os clientes podiam entrar numa loja, escolher o seu tamanho, e levar a peça para casa de imediato.
Em 1960 surge um dos movimentos que mais mentalidades mudou, e mais transformou o modo de vestir. O período é lembrado também por ter sido a primeira vez na História da moda que os jovens não se vestiam como os seus pais.
O movimento Hippie surgiu na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, e queria oferecer uma nova visão do mundo. No entanto, é preciso saber colocá-lo no contexto histórico.
Assistia-se a uma grande escalada de violência, principalmente entre os Estados Unidos e a União Soviética e, ainda no período da Guerra Fria, surge o movimento
'Beat', contestando precisamente o capitalismo e a violência. Gera-se uma cultura que questionava praticamente todos os valores tradicionais: o estilo de vida, a moral, os padrões de beleza, o casamento, o consumismo.
Ainda nos anos 50, vários escritores se uniram nessa critica à sociedade, como foi o caso de William Burroughs e Elise Cowen, entre outros. No entanto, ao herdar o pensamento Beat, o movimento Hippie acrescentou-lhe um estilo de vida próprio. Levaram mais longe o discurso 'paz e amor’, até porque decorria a Guerra do Vietname; participaram em marchas, e até se juntaram à luta de Martin Luther King. Por acreditarem que lhes 'abria a mente', consumiam drogas alucinogénias, e daí surgiu a cultura psicadélica, marcada pelo uso de cores fortes.
Infelizmente, este consumo levou à morte de muitos jovens, bem como à de grandes artistas da época.
A inspiração psicadélica foi seguida por Emílio Pucci, chamado de “o príncipe das estampas”, devido às suas peças extremamente coloridas.
Este estilista também é reconhecido por ter lançado peças em nylon elástico, conhecidas como 'cápsulas'; as antecessoras do vestuário de ginástica e dos
collants de hoje.
O festival de música de Woodstock, em 1969, foi o apogeu deste movimento,
juntando músicos como Janis Joplin, Joan Baez, Jimi Hendrix, The Who, entre
outros.
O movimento Hippie trazia para a Moda os cabelos longos, as batas indianas, vestidos e saias longas, calças boca-de-sino, como parte do vestuário dos seus seguidores.
Os rapazes, de couro e jeans; imitavam os seus ídolos de Hollywood, como
James Dean e Marlon Brando, e do Rock’n’roll, como Elvis Presley e os Beatles. Foi a época das popas e das lambretas.
As raparigas vestiam a mini-saia da Mary Quant - ou de André Courrèges? - botas brancas até ao joelho, calças cigarrete, vestidos de corte direito. Atrizes como Audrey Hepburn e Natalie Wood, e o filme 'Boneca de Luxo', lançaram modas e tendências.
É também a época das roupas unissexo.
Em 1966 o estilista Yves Saint Laurent cria o smoking feminino, peça que
marcou o século XX. O estilista lança também uma rede de lojas com vestuário
mais acessível, inspirado na vida boémia parisiense, a Rive Gauche.
No entanto, quem conseguiu ser mais original nesta época foi Paco Rabanne, que, em 1967, apresentou uma coleção inspirada no Espaço, com vestidos feitos de argolas e discos metalizados.
O visual na década de 70 continuava a seguir o movimento Hippie, mas acabaria por ser muito mais rico que isso. Foram os anos do estilo Disco, do Punk, do glam rock. Figuras como Jimi Hendrix, John Travolta, Silvester Stallone e Michael Jackson, influenciaram toda uma geração. Era o tempo de ser polémico, transgressor, vibrante, dançante...
Surgem os Queen, os Pink Floyd, os Abba, os Rolling Stones...
É lançado o primeiro videogame do mundo, chegámos à Lua e exploramos Marte, a tv a cores torna-se cada vez mais popular.
Mas também existem conflitos, guerras e golpes militares, em vários locais do mundo. Portugal tem a Revolução dos Cravos, surge a crise do Petróleo, acabam os Beatles e morre Elvis Presley.
Nas ruas desfilam jeans, calças boca de sino, macacões, golas altas, brilhos e, saídos do vestuário Punk: tachas, alfinetes, camisolas grafitadas.
O cenário da Moda cresce a nível internacional com a presença de nomes como Giorgio Armani, Kenzo, Calvin Klein, Jean Paul Gautier, Yamamoto, entre outros.
Nos Estados Unidos os estilistas valorizavam a mulher profissional.
Talvez se possa dizer que a excentricidade e a teatralidade na Moda surgiram
nesta altura, com figuras como Elton John e David Bowie, representantes do glam rock e da androginia.
Pinturas faciais e corporais, sapatos e botas com plataformas, mullets tingidos, collants e lantejoulas, compunham este look. A emblemática boutique Biba, em Londres, propagava este estilo com a venda de écharpes de plumas, casacos com brilhos e coletes elaborados.
Apesar de muitos considerarem que o movimento Punk teve a sua origem em Londres, as influências musicais parecem ter vindo de Nova Iorque. Transsexuais, poetas de rua, grupos que consumiam drogas; formavam bandas, como resposta aos hippies e ao rock progressivo. A música, as letras, as atitudes e, claro, o visual, pretendiam mostrar agressividade, indignação, experimentação e autoexpressão.
A loja Sex foi uma das que propagou, com mais sucesso, este estilo, possivelmente inspirada nos Sex Pistols.
A conhecida estilista Vivienne Westwood comercializava peças com nomes
bem sugestivos, como as “camisas anarquia”, os “trajes de carrasco”, ou as
“calças bondaje”. Como não possuía formação em modelagem, Westwood cortava o tecido sobre o próprio corpo, como foi o caso da t-shirt rasgada. Inspirava-se em temas urbanos e na cultura Celta, dando preferência a cores como o preto, o vermelho, o branco, o xadrez, e o rosa fluorescente.
Se os anos 60 foram influenciados pelos Hippies, os anos 80 serão dominados pelos Yuppies, os Young Urban Professionals.
Os ideais de outrora são substituídos pelo consumo desenfreado. Comprar peças de grandes estilistas e marcas é agora o objetivo dos jovens.
É a década do exagero, do kitsch, dos chumaços nos ombros, do vinil e do bigode.
O que acontece ‘lá fora’?
Nasce o primeiro bebé proveta, é identificado o vírus da Sida, descobre-se o buraco na camada de ozono. Na União Soviética acontece o pior acidente nuclear da História, matando milhares de pessoas. Aparece o cometa Halley.
A Nasa lança duas importantes sondas espaciais, mas a Challenger explode no céu. É apresentada a World Wide Web, cai o muro de Berlim; assiste-se ao massacre da Praça da Paz, em Pequim.
Michael Jackson faz sucesso mundial com o álbum Thriller, brilham bandas e cantores como a Madonna, Duran Duran, Pet Shop Boys, Prince, Cyndi Lauper, Guns N’ Roses, Journey, U2, Iron Maiden, Bon Jovi...
Estreia nos cinemas o filme ‘E.T. - O Extra Terrestre’; e ‘O Nome da Rosa’, é um dos grandes sucessos literários.
E em Portugal?
A década de 80 mudou a relação que tínhamos com o dinheiro. Começamos a jogar no Totoloto, abre o primeiro hipermercado Continente, surgem as caixas Multibanco. Temos a primeira telenovela portuguesa, a Vila Faia; o Chiado a arder, entramos na CEE, e bebemos Pisang Ambon.
Convenci o meu pai a entrar no Bora Bora, ia com as minhas colegas ao Frágil e com as minhas amigas ao Rock Rendez Vous.
Fui aderecista do Tenente – pois frequentava um curso de designer com a Eduarda Abbondanza e o Mário Matos Ribeiro – no primeiro Manobras de Maio: 17 de maio de 1986. Acho que nem tive real perceção do que testemunhava…
Foi a explosão dos criadores portugueses. O Big Bang.
Este lugar devia ter uma marca especial no mapa de Portugal: Largo do Chafariz – Rua do Século – Lisboa.
Até ali só conhecíamos os Porfírios e a Ana Salazar.
Situada na Baixa de Lisboa, os Porfírios era a loja preferida dos jovens, pelo seu conceito de vestuário mais ousado, pela sua música alta e a sua decoração.
Lembro-me das filas que tinha à porta, mas a alternativa eram lojas de roupa cinzenta e retrógrada. Então esperava.
Ana Salazar despensa apresentações. Começou por trazer peças de Londres para a sua loja ‘Maçã’, em Alvalade, que se tornou num lugar incontornável para aqueles que procuravam a diferença. Em 1978 já fazia as suas criações, mas é em 1985, e já com o seu nome como griffe, que se afirma nacional e internacionalmente. Apresentou as suas coleções sazonalmente em Lisboa, Milão, Paris e Nova Iorque; como nenhum criador português fazia até ali. A importância dada ao styling, tanto dos desfiles, como dos catálogos, superava o que se via por cá. O seu atelier foi também uma escola prática de muitos designers de moda, como José António Tenente, Mário Matos Ribeiro e Filipe Faísca.
Nos anos 80 e 90 surgem vários criadores, como Miguel Vieira e o seu city chick, João Rôlo, Manuel Alves e José Manuel Gonçalves.
Fátima Lopes veio a tornar-se a estilista portuguesa mais internacional, rivalizando com Ana Salazar. Em 2000 desfilou em Paris o biquíni mais caro de sempre, feito de ouro e diamantes, avaliado num milhão de dólares.
Em 2011 abriu oficialmente a Paris Fashion Week e, no âmbito do Portugal Fashion, surpreendeu o mundo com o primeiro desfile de sempre na emblemática Torre Eiffel. Em 2013 lançou o seu primeiro perfume e em 2016 a sua coleção de sapatos.
Dino Alves, Katty Xiomara e Maria Gambina, foram outros nomes que surgiram também por esta altura.
É a época do pujante rock português. Os Gnr cantam ‘Portugal na CEE’, António Variações o ‘Estou Além’ e desaparece pouco depois.
As famílias vão para as Amoreiras ‘andar de escadas rolantes’, ou comprar malhas Benetton.
As tendências aprendem-se nas novas revistas femininas: Elle, Marie Claire e Máxima, as mulheres fazem aeróbica com a Jane Fonda.
Tudo isto se refletiu na moda.
E por falar em mulheres...
A presença destas em cargos de chefia fez com que surgisse um novo ideal feminino e a silhueta afirmava-se com conjuntos de saia ou calça-casaco com ombros marcados.
Esta tendência foi bem aproveitada pela Hugo Boss, que produzia roupas de trabalho e uniformes desde os anos 20, apresentando agora conjuntos prêt-à-porter feitos com tecidos de qualidade. Esta marca é também conhecida por ser um dos primeiros casos de publicidade de sucesso, apresentando a sua etiqueta na Miami Vice, uma das séries mais populares da época.
Aliás, a ficção também ajudou na construção de um estilo de vestuário mais glamoroso, com séries como Dallas e Dinastia, que vieram mostrar ao mundo o trabalho do estilista americano Nolan Miller.
Além das roupas, a ostentação também estava presente nos acessórios caros usados pelas atrizes.
Tudo isto, fez com que os historiadores considerassem os anos 80 como a década do exibicionismo social; até porque, nos Estados Unidos, a presidência de Ronald Reagan trazia de volta a receção formal, com eventos, bailes de caridade e jantares de Estado, que exigiam trajes a rigor.
Assim, a mulher americana exibia a silhueta refinada de Carolina Herrera durante o dia; e as peças luxuosas de Arnold Scaasi, estilista canadiano conhecido por vestir Primeiras Damas, à noite.
Foi também quando os estilistas começaram a ‘misturar-se’ nos eventos da alta sociedade. Oscar de la Renta chegou mesmo a ser convidado para receções na Casa Branca.
Ralph Lauren, Giorgio Armani e Calvin Klein, são outros dos estilistas que souberam aproveitar o consumismo pelas marcas da altura.
Em oposição a tudo isto, e até porque parece que a Moda tem sempre duas faces como a Lua, destacava-se o movimento hip-hop, ou a moda de rua.
Pelas cidades americanas evidenciava-se a cultura afro-americana e as preocupações sociais das populações urbanas, o que veio a influenciar a moda com o uso de vestuário em tecido kente (tecido feito com tiras de tecido entrelaçadas), e a escolha de cores como o preto, o amarelo e o verde.
Natural de Brooklyn, Karl Kani foi talvez o primeiro a comercializar estas roupas que refletiam a cultura de rua. Grupos como Public Enemy e Run-Dmc contribuíram para difusão deste visual desportivo, rejeitando as altas griffes e a moda seguida pela outra metade da sociedade.
Os anos 1990 começaram com mais uma guerra, a do Golfo; e deu-se o fim da União Soviética.
Realizou-se a Eco-92, um marco na questão ambiental. Aqui nasceu o conceito ‘desenvolvimento sustentável’, pois finalmente a comunidade politica internacional admitiu que não podia procurar o progresso degradando o meio ambiente.
O Protocolo de Kyoto, onde os países assumiam o compromisso de reduzir os gazes de estufa, foi assinado pouco depois. Só entrou em vigor em 2005 e os EUA não o assinaram.
Foi também quando Israel e a OLP assinaram o acordo de paz, ... que ainda não conseguiram cumprir.
Na moda observa-se uma grande diversidade de estilos:
Jeans coloridos e blusas justas ao corpo, eram uma grande tendência.
Como anteriormente, a música influenciou o vestir dos jovens desta época e, neste caso, o Grunge foi quem deu o mote.
Peças despojadas como calças e bermudas largas, camisas e saias de xadrez, roupas rasgadas.
Surgiram também novas interpretações dos anos 60 e 70, com o reaparecimento das plataformas.
Mais recentemente temos visto renascer peças amplamente utilizadas durante a década de 1990, como as cinturas subidas, a camisa de xadrez, os jeans rasgados e até os óculos redondos.
Chegamos a 2000. O mundo era para acabar, mas afinal ainda aqui estamos…
Nós, o mundo, e a moda. Aliás, esta nunca esteve tão presente nas nossas vidas como nos últimos tempos; seja em desfiles, revistas, programas de televisão, na rua…
Hoje em dia o diversificado leque de materiais à disposição, todo um conhecimento global que a internet facilita, poucos tabus a respeitar, facilitam as criações dos designers.
Vou falar-vos de alguns.
Louis Vuitton tem as suas malas, que são já imitadas por todo o planeta; a American Apparei introduziu no quotidiano as leggins de várias cores e texturas; a Diesel tornou as suas jeans uma peça de status.
As séries televisivas continuam, cada vez mais, a promover estilistas, como foi o caso de Christian Louboutin e ‘O Sexo e a Cidade’. A sua imagem de marca são os sapatos de salto altíssimo e a sola vermelha. Podem observar-se as suas criações nos pés de mulheres bem conhecidas de Hollywood, como Victoria Beckham, Dita Von Teese, Katie Holmes e Angelina Jolie.
Outro nome que não podemos esquecer é Karl Lagerfeld, que faleceu em 2019. Foi ele quem deu continuidade à griffe Chanel. Apaixonado por fotografia, produziu a Visionaire 23: Roupa Nova do Imperador, em 2005, que exibe uma série de fotos nuas de modelos e atrizes.
O italiano Alessandro Michele formou-se na Academia da Moda, em Roma; mas os seus pais já lhe tinham apresentado o mundo das artes, dada a paixão que alimentavam pela escultura e pelo cinema.
Allessandro começou por trabalhar para a Fendi e, em 2015, assumiu a direção criativa da Gucci, onde surpreendeu e inovou. Conquistou um público jovem, criando uma griffe genderless, ou seja, quebrando estereótipos do masculino e feminino. As suas influências atravessam o pós-punk, o cinema e o teatro; apresenta cortes diferentes, em tecidos refinados, tons vivos e estampas florais.
Quem também é famosa por mostrar maxi estampas é Donatella Versace.
Quando Gianni, seu irmão mais velho, foi assassinado nos anos 90, ela teve de assumir a griffe e, mesmo de luto, conseguiu apresentar a sua primeira coleção em apenas três meses. Os modelos são sensuais, com recortes geométricos, privilegiando um look glam rock e all black, com acessórios dourados.
Vista várias vezes acompanhada por figuras como Madonna, Elton John, Lady Gaga, ou mesmo o Príncipe Charles; a estilista é bem relacionada no mundo das celebridades.
A Netflix lançou, em 2019, um episódio que conta a tragédia da família.
E quando se fala em tragédia, lembramo-nos de Diane Von Furstenberg; uma economista belga, de família judia, que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz. Casou com um príncipe da nobreza alemã e resolveu trabalhar como estilista. É conhecida pela criação do icónico vestido-envelope.
Chegou a trabalhar como editora, em Paris, mas acabou por voltar à carreira de estilista, batizando a marca com as suas iniciais: DVF. Além da roupa, a marca apresenta também malas, lenços, cosméticos, perfumes e óculos.
Atualmente é casada com um dos fundadores da Fox Broadcasting Company.
Outro nome que não podemos esquecer é Pharrell Williams.
Um cantor?, perguntam vocês.
Bem, cantor, produtor musical americano e também eleito ‘O homem mais bem vestido do mundo’ pela revista Esquire, em 2005.
A partir daí a sua ingressão no mundo da moda nunca mais parou. Assinou parecerias com a Moncler, Comme des Garçons, Adidas e Chanel, sendo o primeiro homem negro a desfilar para esta última, em 2018. Um ano depois volta a juntar-se com esta marca para a coleção cápsula de roupas e acessórios genderless, que combinam os motivos característicos desta griffe com a vibração urbana do rapper americano; a coleção Chanel-Pharrell. É co-fundador da marca Billionaire Boys e sócio da G-Star Raw, griffe que tem uma linha ecológica.
Sim, parece que a tendência dos anos 2000 vai ser cada vez mais o vestuário sem género e o respeito ecológico.
E até porque nem tudo na moda é espetáculo, cultura ou glamour…
Em 2013 o mundo da moda foi tragicamente abalado pelo desabamento do Rana Plaza. Este prédio, situado na capital do Bangladesh, abrigava milhares de trabalhadores que confecionavam peças de vestuário para marcas conhecidas de todo o mundo. Milhares de pessoas ficaram feridas, muitas incapacitadas para sempre, e mais de mil perderam a vida; para que o desejo insaciável de consumo fosse alimentado.
A indústria da moda procurava custos cada vez mais baixos, mas esquecia-se dos corações que batiam por trás de cada peça.
Principalmente em países asiáticos, as violações dos direitos humanos são frequentes, e as condições de trabalho degradantes.
Além disso, esta indústria é também uma das mais poluidoras do planeta, pois envolve a extração de matéria-prima, fiação, tecelagem, corte, costura, e posterior descarte.
No entanto, a moda faz parte da nossa cultura. Ela inspira, provoca, é uma arte, um movimento, uma filosofia.
Para que exista de uma forma positiva foi criada a Fashion Revolution, que pretende sensibilizar o mundo para o impacto socio-ambiental do setor, lembrar as pessoas por trás da confeção e incentivar a sustentabilidade.
Assim, termino com uma estilista que incorporou a sustentabilidade nas suas criações:
Stella McCartney. Ela segue o vegetarianismo até naquilo que veste e dá a vestir, pois defende que nenhum animal tem de morrer pela moda. Não usa couro, pele ou penas; nem mesmo a cola, usada nos sapatos ou malas, é de origem animal.
Filha do ex-Beatle Paul McCartney, Stella foi colega de quarto de Kate Moss e conseguiu a presença de supermodelos no seu desfile de final de curso.
Que inveja! Eu ‘só’ tive a Xana Nunes e a Mi Romano (que naquela altura não tinham ainda estes apelidos).
Hoje, em 2021, o que podemos dizer que está a influenciar a moda?
Um vírus que nos isola, confina, separa. Uma pandemia que nos obriga a esconder a alegria, o sorriso. Sim, também atrás de uma máscara…
Com o surto, em 2020, muitas marcas tiveram de cancelar os seus desfiles, ou faze-los à porta fechada com uma reduzida plateia; como foi o caso da Armani, Uma Wang, Gucci, entre outros.
Existe também o problema da produção, pois muitas marcas contratam fábricas chinesas e estas encerraram por longos períodos.
Ainda no ano passado, Dolce&Gabbana fez uma das primeiras apresentações com público, da era Covid, com a devida distância e uso de máscaras, e apenas para um seleto número de convidados. Realizou-se no campus universitário da fundação de pesquisa médica Humanitas, que está a tentar desenvolver uma vacina para combater o vírus. Projeto financiado pela marca.
Muitos estilistas optam apenas por desfiles nas redes sociais.
A ModaLisboa também se realizou em Outubro, no Espelho d’Água, do Jardim Amália Rodrigues. Roupa com cor, padrões, criatividade e… um novo adereço: a máscara.
A economia do mundo da Moda sofreu também grandes quedas.
Todos temos de concordar que o glamour de visitar uma boa loja e experimentar alguns modelos, nada tem a ver com comprar peças de roupa online.
E também ninguém quer entrar numa boutique que parece a triagem de um hospital, com vendedores de máscara, luvas e gel desinfetante.
É um grande desafio que os profissionais da moda têm hoje nas suas mãos: adaptar a sua criatividade aos dias de uma pandemia que está longe de nos deixar.
23-02-2021

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