1 de abril de 2026

Um Poema por Dia - Abril - Mês Global da Escrita de Poesia

Este ano decidi participar na NaPoWriMo: 

https://www.napowrimo.net/ 

Mês Nacional/Global da Escrita de Poesia

O desafio de escrever um Poema por dia durante todo o mês de Abril 

Fica o primeiro - 01/04 - dica do site:  

E agora, aqui está nossa sugestão (opcional) para o dia! O tanka é uma antiga forma poética japonesa. Em versões contemporâneas em inglês, geralmente assume a forma de um poema de cinco versos com uma contagem de sílabas de 5/7/5/7/7 – algo como um haicai que resolveu continuar. 



Fica o meu, também traduzido em inglês: 



Primavera

Pétalas brancas, 
sol suave na colina, 
o gelo morre. 
O vento traz o perfume 
de flores que despertam. 


White petals upon 
Gentle sun on distant hills 
Winter ice dies 
Breezes bring a new fragrance 
Of flowers waking up now




02/04

Hoje, gostaríamos de desafiá-lo(a) a escrever seu próprio poema, no qual você relate uma memória da infância. Tente incorporar a ideia de como essa experiência lhe indicou, mesmo naquela época, algo sobre a pessoa que você se tornaria.


Entre Picasso e Hemingway

Quando era pequena, 
a minha mãe ensinava-me a desenhar,
e o mundo cabia numa folha
as tardes tinham cheiro a cores frescas
e as nuvens eram fáceis de agarrar

Sentava-me no chão e pintava,
como quem espreita por janelas mágicas.
Os meus céus não eram só azuis,
os rostos guardavam segredos nos olhos,
e as pinceladas pareciam sussurrar

Então eu queria ser pintora
diziam-me: 'quando morreres vais ser famosa'
E eu sujava as mãos nesse sonho,
misturava amarelos com coragem
e azuis com silêncio,
até nascer algo que fosse só meu.

Mas à noite, quando a luz ficava mais suave,
abria um livro e entrava noutro sonho,
as páginas viravam-se como portas,
e cada palavra era um passo num mistério.

Seguia pistas, desconfiava de sombras,
aprendia que nada é exatamente o que parece.
E no fim, quando tudo se revelava,
eu sorria, como se tivesse descoberto o segredo do mundo.

Então eu queria ser escritora. 
Ninguém me ensinou, mas eu queria
(A minha professora dizia que sim)
Inventar enredos que prendessem a respiração,
e finais que ficassem a ecoar no pensamento...

Entre tintas e palavras, cresci assim
dividida e inteira ao mesmo tempo,
entre cores espalhadas e palavras por nascer.
sem nunca escolher um só caminho.

Queria ser pintora.
Misturar o mundo sem pedir licença,
desfazer rostos, reinventar olhares,
pintar em traços desalinhados
E queria ser escritora.
Dizer muito com pouco,
esconder tempestades em linhas calmas,
deixar que o não dito gritasse mais alto.

Entre Picasso e Hemingway,
crescia um sonho meio torto, meio certo
Entre pincéis e palavras,
fui inventando quem era
um traço aqui, uma frase ali,
como se a vida fosse uma tela por resolver.

Porque talvez nunca tenha sido escolha:
entre pintar ou escrever.

Talvez sempre tenha sido isto
viver algures entre Picasso e Hemingway,
onde as cores dizem o que as palavras não alcançam,
e as palavras pintam o que o olhar não vê.



03/04

... Se você cresceu com a noção cultural de que poetas são pálidos e etéreos, ou doentes e fadados ao fracasso. O poeta pirata e exuberante de Parikh pode ser um personagem “pouco confiável”, mas parece ser a alma de qualquer festa e bastante satisfeito com sua existência. Hoje, desafiamos você a escrever um poema no qual uma profissão ou vocação seja descrita de forma diferente da que normalmente se considera. Talvez seu poema apresente um neurocirurgião muito tranquilo, ou um fazendeiro que odeia vegetais. Ou talvez você tenha um alter ego poético próprio, que ostenta com orgulho uma bandeira de caçador de tesouros nada pálida.


Espia

Sento-me num café antigo de Lisboa,
com um caderno gasto e um nome que não é meu.
Gatafunho versos como quem assina cartas falsas,
e ninguém desconfia
sou apenas mais uma mulher a escrever.
Mas não sou.
Sou poeta, sim,
como Pessoa quis ser muitos,
mas em mim há outra urgência:
ser várias para sobreviver.
Há dias em que sou Helena,
melancólica, de chá frio e metáforas longas.
Outros, sou Inês,
seca, precisa, quase sem alma.
E há ainda aquela cujo nome nunca escrevo,
a que escuta demais.
Essa não faz poemas
assina sentenças

Entre um verso e outro,
deslizo códigos nas margens,
mensagens escondidas em rimas imperfeitas,
datas disfarçadas de saudade.
Os homens à minha volta falam de guerra
como quem fala do tempo,
e eu sorrio, distraída, fingida,
enquanto decoro cada detalhe.

Sou poeta, digo
e é verdade,
porque invento mundos para não ser descoberta.
Queria ser só poeta,
mas a guerra não me deixou,
e isso ninguém escreve por mim.
À noite, no quarto alugado,
dispo nomes como quem despe máscaras.
Olho-me ao espelho
e já não sei qual delas fui hoje.
Talvez nenhuma.
Talvez todas.

Queria ser poeta, digo em silêncio,
queria ser só poeta,
repito a palavra com o receio de a perder
com medo que deixe de existir.
não quero dividir-me em sombras,
em nomes que não são meus,
em vozes que me traem.
Não quero escutar segredos nas esquinas da alma
não os quero escrever com tinta invisível...

Talvez ser poeta seja isso,
tento convencer-me,
um jogo de identidades secretas,
um teatro onde ninguém é inteiro,
onde cada verso é uma pista.
alguém que se nega, que se escreve por dentro
com caligrafia clandestina.

E no fim,
quando tudo for revelado,
talvez descubra que nunca fui um
mas muitos,
e a missão era me descobrir.

E enquanto a cidade adormece,
eu escrevo mais um poema,
ou mais um segredo,
sem saber ao certo
qual deles será lido primeiro.




04/04

Hoje, gostaríamos de desafiá-lo(a) a criar seu próprio poema curto que envolva um fenômeno climático e algum aspecto da estação do ano. Tente usar rimas e manter seus versos com comprimentos aproximadamente iguais.


Furacão de Outono

Era para ser um outono sereno,
um tempo lento, doce e ameno,
chama a dourar cada recanto,
tempo a fluir leve e brando.

Era suposto um outono calmo,
folhas a cair, silêncio manso,
folhas no chão, dourado pleno,
um respirar calmo, simples e pequeno.

Mas fez-se em mim um giro terreno,
vento rasgando tudo em veneno,
veio o caos, rude e desfeito,
levando o sonho que tinha perfeito.

Folhas que eram paz no caminho,
viraram pó num sopro sozinho,
e a vida, tranquila, foi arrastada,
numa espiral desgovernada.

Cresceu em mim um vento indomado,
que girou sem rumo e desfez o passado,
como se o mundo não assentasse,
como se o outono em mim falhasse.

E eu que só queria desacelerar,
ouvir o tempo passar devagar,
vi o céu em ruptura, o chão rasgado,
vi um furacão descontrolado.

E ainda assim, algures resiste
uma ideia leve de abrigo, triste,
como se depois da tormenta adormecer,
o outono pudesse, enfim, acontecer.




05/04

Devo confessar que a ideia de você ser tão rabugento a ponto de odiar trevos e abelhas me diverte muito. Hoje, o seu desafio é seguir o exemplo de Catulo e Darwin e escrever um poema em que você fale sobre detestar algo – particularmente algo completamente inofensivo, como trevos. Exagere! Seja um pouco tonto e dramático.

Escrita feliz e rabugenta!


Grilo Falante

Odeio grilos que falam,
não os de campo, honestos no seu cantar,
mas aqueles com voz de sermão
e moral de bolso pronta a saltar.

Pequenos tiranos de cartola invisível,
instalados no ombro sem pagar renda,
dando conselhos como quem vende
virtude em promoção de mercearia velha.

Já te disse que odeio insetos?

Ah, tu, grilo falante,
com teu ar de sábio mal convidado,
sempre a interromper o erro alheio
como se errar não fosse também um fado.

Não faças isso!, pensa melhor!
isso é errado!, isso é pior!

Mas eu conheço o teu jogo, inseto,
não és saber, és um eco insistente,
uma culpa de patas finas
e uma língua deveras irritante!

Já te disse que odeio insetos?

Rabugenta, sim, fico eu
Quem aguenta um grilo juiz?!
que nunca se cala, nunca se cansa,
e ainda espera um 'obrigado' feliz?

Prefiro o silêncio bruto da noite
Que todos os grilos façam as malas!
Que todos os insetos partam com eles!
E mudos de consciência, por favor, sem falas.

Já te disse que odeio insetos?



06/04

No seu poema de hoje, tente escrever com um tom leve e coloquial, incluindo pelo menos uma coisa que só poderia acontecer num sonho.


Esplanadas

Salto da chávena como quem atravessa portais invisíveis,
o café ainda a fumegar transforma-se em mapa,
e eu, viajante de goles, dissolvo-me no aroma.

Num piscar de olhos, Lisboa abre-se em azulejos líquidos,
mas antes que o açúcar assente no fundo,
já estou em Roma, a discutir com pombos existenciais
sobre a espuma perfeita.

Dou um golo no café,
e Paris acontece.

As cadeiras de ferro sussurram segredos antigos,
croissants olham-me com desconfiança,
e eu rio, porque sei que não pertenço a lugar nenhum,
apenas ao próximo gole.

Tóquio surge num turbilhão de néon e silêncio,
o café agora é preciso, quase matemático,
cada gota uma equação que me resolve e me desfaz.

Bebo outra vez.

Rio de Janeiro dança dentro da chávena,
o calor cola-se à minha pele imaginária,
e o café sabe a sol, a suor, a samba embriagado.

Mas, cuidado!
porque se bebo rápido demais
posso cair entre continentes,
ficar presa numa esplanada esquecida
onde o tempo não tem colher.

Por isso saboreio.

Cada golo é um feitiço,
cada chávena um aeroporto clandestino,
cada esplanada um universo paralelo
onde nunca pago a conta
e nunca me despeço.

E quando o café acaba…

Fico a pairar
entre cidades que já não sei se visitei
ou se apenas inventei
enquanto me bebia a mim própria.


07/04

No seu poema “ Rima do Quintal da Frente ”, Cecily Parks evoca as batidas cantadas que acompanham as brincadeiras de meninas batendo palmas , e as rimas de pular corda . Hoje, desafiamos você a escrever o seu próprio poema que imite essas canções: algo para estalar os dedos, bater palmas e pular por aí.

Salta

Pula, pula, sem parar,
A corda gira no ar,
Um, dois, a contar,
Quem falhar vai descansar!

Salta alto, tira o pé do chão,
Roda, roda, coração,
Salta a Maria, cai o João,
Ficou preso pelo calção!

Pula, pula até cansar,
Mas sem nunca tropeçar,
Se a corda no pé bater,
Troca a vez e vai correr!

Salta, tropeça, e volta a rir,
da corda não queres fugir,
E no meio da confusão,
Ganha quem não der um trambolhão!


08/04

No seu poema “ Poeta, Não , Obrigado”, Jean D'Amérique repete a frase “Eu não era poeta” várias vezes, enquanto descreve outras coisas que, em vez disso, afirma ter sido. Em seu poema de hoje, use uma frase simples repetidamente e, em seguida, faça afirmações que invertam ou contradigam essa frase.

Desabafo

Odeio escrever!
Repito como quem insiste numa verdade cansada,
como se as palavras fossem espinhos,
e não este jardim que cresce sem pedir licença.
Odeio escrever!
Não gosto
Custa-me
Arranca-me tempo e paciência
Mas ainda assim fico
Ainda assim volto
Ainda assim escrevo

Talvez odeie o silêncio antes da primeira frase,
ou o peso de escolher entre mil maneiras de dizer
o que já pulsa cá dentro.
Talvez odeie não conseguir fugir
das palavras
de mim 
quando escrevo.

Odeio escrever!
Porque escrever é isso
um espelho sem piedade,
uma confissão sem testemunhas
um lugar onde não há como mentir bem.

Odeio escrever!
E mesmo assim...
olha-me aqui,
a alinhar versos como quem respira
a fingir desdém enquanto construo
cada linha com cuidado.

Se eu realmente odiasse escrever,
digo para mim,

já teria parado na primeira palavra.
Mas não parei.
Nem paro.

Por isso digo que odeio,
só para não admitir
que, no fundo,
é isto que mais me denuncia.


09/04

E isso nos leva à nossa sugestão (opcional) para hoje. Marianne Moore foi uma conhecida poetisa modernista, com um gosto peculiar por chapéus . Embora tenha escrito sobre muitos temas, sempre tive um carinho especial por seus inúmeros poemas sobre animais – ou na voz de animais –, como “ O Peixe ”, “ Ratos do Cais ”, “ O Pangolim ” e “ Nenhum Cisne tão Belo ”. Hoje, tente escrever o seu próprio poema na voz de um animal ou planta, ou um poema que descreva um animal ou planta específico com referências a eventos históricos ou fatos científicos.

(Poema inspirado no Sermão de Santo António aos Peixes, mas desta feita o inverso: dos peixes aos humanos)

Sermão aos Humanos

Ó humanos, que caminhais sobre a terra firme
e julgais firme o que em vós é mar revolto,
escutai-nos, nós, peixes silenciosos,
que no fundo guardamos o que vós esqueceis.

Vós, que vos dizeis senhores da criação,
por que devorais sem fome e sem medida?
Entre nós, o grande não caça por soberba,
nem o pequeno cresce à custa da mentira.

No vosso mundo, o anzol chama-se ambição,
e a rede, tecida de ouro, prende-vos mais que a nós.
Correis atrás de brilhos como se fossem vida,
e perdeis o rumo, cegos de vós próprios.

Nós fugimos da sombra do pescador,
mas vós correis para ela com alegria,
oferecendo a alma por um punhado de nada,
como quem troca o oceano por uma gota vazia.

Dizei-nos, que espécie sois,
que envenena as próprias águas onde bebe?
Que rasga o ventre da terra que o sustenta,
que envenena o ar que respira?

Entre nós há cardumes e há solidões,
mas nenhum peixe trai o seu mar.
Vós, porém, trocais verdades por conveniência,
e chamais prudência ao que é trair e desertar.

Aprendei connosco, se ainda podeis,
não é o tamanho que faz a grandeza,
nem a ambição que dita o valor,
mas o lugar que se ocupa na natureza.

E quando, enfim, o vosso ruído cessar,
e o mundo voltar ao seu antigo fôlego,
talvez então compreendais, cedo ou tarde,
que até o mais mudo dos peixes falou.


10/04

E agora, nossa sugestão diária (opcional). Em seu poema “ Adeus ”, Geoffrey Brock descreve o luto em três estrofes curtas, sendo a segunda inteiramente composta por um diálogo retórico. Hoje, escreva sua própria meditação sobre o luto. Tente usar a forma de Brock como “recipiente” para o seu poema: algumas estrofes curtas, com uma secção intermediária na qual uma pergunta é repetida com diferentes respostas.

Luto

Há um fim
Pode chegar devagar,
ou de repente
uma porta fechada
um eco ausente

(Para onde vai a voz que eu ouvia?)

Há um fim
O peito aperta à noite
como se chamasse por alguém
O dia continua

indiferente ao que já não tem


(Será que o tempo guarda memórias

ou apenas as desfaz?)


Há um fim
As lágrimas escorrem saudade
impedem a despedida
é preciso esquecer
mas lembrar sustenta a vida

(Quem partiu vive no que restou?
Nas coisas pequenas, em tudo o que em mim ficou?)

Curar não é esquecer
Curar é aprender a sentir diferente
O amor que fica é mais forte que o ausente

11/04

         E agora, para a sugestão (opcional) de hoje! Poesia de apagamento — também conhecida como poesia blackout — é escrita a partir de um texto existente, no qual palavras individuais são apagadas ou cobertas de preto. Hoje, gostaríamos de desafiá-lo(a) a escrever seu próprio poema de apagamento/blackout. Você pode usar uma página de um livro favorito, uma revista, o que preferir. Pode ser especialmente divertido brincar com um livro que você não conhece, principalmente um que trate de um tema desconhecido. 

Brinquei com um poema da filha:



12/04

         Hoje, gostaríamos de desafiá-lo(a) a escrever seu próprio poema que narre a memória de um parente querido e algo que ele(a) fez que ainda ressoa em seus pensamentos hoje.


Filha

Filha minha, luz tranquila,
que chega e logo me ilumina,
no teu riso mora o dia,
no teu abraço, a vida inteira.

És feita de gestos simples,
de um amor que não se mede,
companheira nos silêncios,
amiga que nunca cede.

Quando o mundo pesa lá fora
és refúgio e és caminho,
tens no olhar um céu aberto,
onde encontro o meu ninho.

Cresce livre, doce e forte,
com coragem no coração,
e leva contigo a minha ternura
como quem leva uma canção.

Filha minha, és para sempre
este amor sem peso nem medida
presença que aquece a minha alma,
sempre darás sentido à minha vida.


13/04

         Experimente hoje escrever seu próprio poema sobre uma paisagem querida e que você se lembra com carinho. Pode ser o quintal da sua avó, a quadra de basquete da sua escola ou um pequeno trecho de mata perto da linha férrea. Em algum momento do poema, inclua linguagem ou frases que seriam incomuns na fala cotidiana – como uma rima ou uma sintaxe que soe antiquada ou rebuscada.


Olhos d'Água

Na areia dourada dos Olhos d’Água
ficaram pegadas que o mar não levou,
risos soltos largados ao vento
memórias que o tempo guardou.

Cheiro a saudade, sabor a sal
toalhas abertas como abraços,
o som das ondas, sempre igual
embalando os nossos passos.

Ali, entre falésias e céu aberto,
éramos mais do que apenas nós,
éramos tardes sem pressa,
irmãos, sobrinhos, pais e avós.

Castelos erguidos com mãos pequenas,
promessas escritas na maré,
e o mundo inteiro cabia
na simplicidade de ser

O mar, cúmplice silencioso,
guardou segredos de infância e calor,
em que cada pôr do sol pintava
um retrato feliz e simples do amor.

Olhos d’Água não são apenas um lugar
são um tempo que nunca passou,
vivem em cada lembrança minha
de todos e de tudo o que ali ficou.


14/04

E agora, para o nosso desafio (opcional!). A poesia é uma arte antiga, que revisita temas que existiam há milhares de anos – o amor, a natureza, o ciúme. Mas isso não significa que os poetas vivam numa espécie de pré-história alheia aos avanços tecnológicos. Emily Dickinson escreveu sobre trens , e eu me encanto com este poema de 1981 sobre o “cabelo incrível” dos atores de televisão. Num exemplo mais recente, o “ Manifesto da Selfie Lírica ”, de Becca Klaver, inspira-se na tendência contemporânea de documentar tudo em fotografias digitais. Hoje, desafiamos você a escrever um poema que, de forma semelhante, faça a ponte (seja ela suave ou não) entre a poesia e os avanços tecnológicos.


Ecrãs

Houve um tempo em que o verso
cabia inteiro num suspiro,
e o papel, pobre e amarelado,
sabia mais de mim do que eu.

Hoje escrevo com polegares apressados,
corrigido por IA's pacientes,
que me dizem onde erro
e, às vezes, onde sentir.

Ah, progresso indelicado e cruel!
já não borro a tinta com lágrimas,
o ecrã não se comove,
apenas bloqueia... reinicia... atualiza...

Os poetas de outrora
tinham musas e inspirações,
nós temos notificações,
e um algoritmo de sugestões

Que ironia doce esta:
quanto mais perfeita a palavra,
menos necessária parece a alma
que a queria imperfeita.

E ainda assim escrevo,
entre um clique e outro,
como quem tenta lembrar
o cheiro de um livro antigo
num mundo que só conhece o brilho do vidro.

Talvez a poesia sobreviva, sim,
mas em versão otimizada,
com rimas recomendadas
e saudades em alta definição.

E eu, poetisa moderna,
guardo num ficheiro seguro
aquilo que antes se perdia ao vento:
a ilusão de que era único
o meu modo de sentir o mundo.


15/04

E agora, para a nossa sugestão (opcional, como sempre). O poema de K. Siva Reddy, “ Uma Canção de Amor Entre Duas Gerações ”, entrelaça repetições, perguntas e símiles inesperados com uma linguagem simples. O efeito geral é íntimo e emotivo, produzindo uma longa meditação sobre o que é o amor, o que ele significa e como ele se manifesta. Hoje, gostaríamos que você escrevesse seu próprio poema que reflita sobre o amor, mas que não seja um poema de amor tradicional no sentido de expressar o amor entre parceiros românticos.

Palavras

As palavras são rios que nunca secam,
correm em mim como veias,
sussurram segredos como o vento nas folhas
e explodem no peito como ondas na falésia.

Escrever é amar com dedos invisíveis,
é tocar o mundo como quem dedilha um piano antigo,
cada letra é uma nota suspensa no tempo,
cada frase um abraço que não termina.

As palavras são como estrelas inquietas,
acendem-se no escuro da mente
e guiam-me como faróis teimosos,
por mares que só existem porque sonho.

São também teimosas sementes,
que caem no papel como chuva
e brotam em jardins inesperados,
repletos de sentidos que eu nem sabia ter.

Escrever é como respirar,
como mergulhar sem medo no silêncio
e voltar à superfície com mundos inteiros
presos nas mãos, tal conchas brilhantes.

Ah, as palavras…
são fogo quando quero arder,
são água quando preciso de calma,
são asas quando o chão me pesa.

E eu amo-as,
como se ama o impossível,
com a certeza estranha
de que nelas encontro tudo
o que ainda não sei dizer.


16/04

...aqui está a sugestão opcional de hoje. Em “ Oceano ”, Robinson Jeffers oferece uma descrição quase oracular e bíblica do mar, não apenas como um fenômeno geográfico, mas como uma espécie de ser – antigo, sábio, profundo e capaz de ensinar aqueles que desejam aprender. Hoje, tente escrever um poema no qual você descreva algo que não pode falar e o que isso lhe ensinou ou lhe contou.


Os Meus Gatos

mestres suaves da subtileza
Na quietude leve de um olhar felino
há frases inteiras que nunca ouvimos,
...mas sentimos.

A arisca Mel, de passos de vento,
fala em silêncios de olhos verdes desconfiados,
num roçar breve diz 'estou aqui'
num fugir guarda vontade de voltar.

Dorme sempre comigo
como quem pede aconchego para os seus sonhos,
de manhã é ela que me acorda,
de barriguinha a ronronar.

Rapha, meu gato cinzento,
de olhos azuis e coração aberto,
conta histórias num abrigo demorado,
em cada colo um abraço invisível,
oferece a barriga num gesto a confiar.

E o Pinky…
O Pinky mora agora na saudade,
mas ainda responde em memórias presentes,
nos cantos da casa onde gostava de estar
e parece que o ouvimos miar novamente.

E há também o ET,
o cinzentinho malhado,
de olhar carinhoso,
companheiro da casa da mãe, 
amor simples e inteiro,
que falava na linguagem mais pura,
a seguir-me para todo o lado
como se o mundo começasse em mim.

Os gatos não falam, mas dizem.
Dizem no olhar que demora,
na cauda que desenha intenções no ar,
no roçar do seu corpo no nosso,
no silêncio cheio que nunca fica vazio.
E quem escuta com o coração
percebe bem a sua lição.
Gatos sábios e serenos,
de elegância tão natural,
falam pouco… pedem quase nada,
mas a mim, ensinaram-me o essencial 

17/04

Para o desafio de hoje, escreva um poema em resposta a um poema favorito de outro poeta.

O poema que escolhi para responder foi um de Florbela Espanca:

"PERDIDAMENTE

Eu quero amar,
Amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... Além...
Mais este e aquele, o outro e a toda gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender?
É mal? É bem?
Quem disse que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar.
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que eu saiba me perder...
Para me encontrar..."

A minha resposta:

Eu não quero amar assim tão... perdidamente,
nem perder-me em cada rosto ao passar,
quero um fogo lento, que se atreve
mesmo quando dói ficar.

Não quero amar o mundo inteiro, em vão,
nem ser de todos sem ser de ninguém,
que o amor, quando cabe na mão,
é pouco, mas quando é fundo, é além.

Recordar? Sim, como quem guarda o mar,
num eco de sal dentro do peito
Esquecer? Só o que não soube ficar
Indiferente? Só o que nunca foi inteiro

Prender? Talvez, mas com laços de ar
Desprender? Se for para não ferir
Que amar não é só deixar voar,
é também ter coragem de seguir.

Se há primaveras, que venham devagar,
não como vento que passa e se perde,
mas como raiz que aprende a ficar,
não como coisa que a Deus se pede.

E se um dia for pó, cinza e nada,
que não tenha sido brasa acesa na palma da mão,
que não tenha sido só uma chama dispersa,

Perder-me? Sim… mas com direção,
Não num acaso de quem nada sente,
Que só se encontra o coração
Quando este se entrega… verdadeiramente.

18/04

Hoje, não desafiamos você a escrever um poema narrativo longo e dramático, mas convidamos você a tentar escrever um poema que possa ser uma secção ou um trecho de um. Inclua rimas, inclua cenas improváveis ​​e dramáticas (talvez um poema sobre um assalto a banco! Ou uma avalanche! Ou gladiadores romanos! Ou um enorme baile realizado por sereias, onde há uma corrente subterrânea (risos) de intriga palaciana!). Basicamente, um poema com o enredo de uma ópera (gémeos malignos! Túmulos egípcios! Amantes predestinados ao infortúnio! Tigres sem motivo aparente!).

Escrevi um poema inspirado num romance de Agatha Christie:

Crime

Na sala fechada, o relógio parou,
um segundo suspenso, e tudo mudou.
O silêncio pesava como segredo antigo,
e o medo sentou-se à mesa, comigo.

O chá arrefeceu na chávena fina,
por mãos que tremiam, ou culpa divina?
Um vulto caiu, sem grito, sem som,
apenas o eco de um destino incomum.

Na alcatifa escura, uma rosa vermelha,
não era flor, mas sangue que se espelha.
Desliza lento, como história mal dita,
manchando verdades que ninguém acredita.

Os olhos abertos fitam o vazio,
guardando o enigma, frio após frio.
Quem entre nós ousou tal ação?
Quem sorri agora, escondendo a mão?

Há veneno no ar, ou lâmina escondida?
Há pistas subtis na rotina vivida.
Um passo, um olhar, uma frase banal,
tudo pode ser chave, ou gesto fatal.

E enquanto a noite envolve a mansão,
cada alma presente pesa na acusação.
Pois num mundo polido de chá e etiqueta,
o crime floresce na alta sociedade lisboeta.

19/04

E agora, para a sugestão (opcional) de hoje. A palavra florilégio se refere a um livro de ilustrações botânicas de plantas ornamentais e também a uma coletânea de trechos de outros escritos. Em seu poema “ Florilégio ”, a poetisa canadense Sylvia Legris reúne várias estrofes de cinco versos que descrevem flores, mas também brincam com os sons dos seus nomes, as suas propriedades medicinais (ou venenosas) e aspectos históricos do herbalismo. Agora, escreva o seu próprio poema, no qual você reflita sobre os nomes e significados das flores que escolheu. Se desejar, você pode até pesquisar um pouco sobre as flores e incorporar as informações que descobrir no seu poema.

escreve um poema inspirado nas flores, e nas suas propriedades: Boas energias: Bambu, Lírio da Paz, Samambaias, Girassol; Perfume: Jasmim, Lavanda, Alecrim, Madressilva; Aromáticas para a comida: Tomilho, Manjericão, Coentros, Hortelã, Salsa, Cebolinho

Flores, Aromas, e outros Sentidos

No canto tranquilo de um jardim acordado,
crescem segredos em folhas e aromas guardados...

O Bambu cresce, tão firme e sereno,
a espalhar boas energias num sopro suave e ameno.
O Lírio da paz, tão branco e elegante,
purifica o ar e torna mais leve o passado.
As Samambaias, rendas de verde tecidas,
sussurram calma, purificam, e atraem boas energias,
já o Girassol, dourado e fiel,
segue o sol, procurar a luz é o seu papel.

Saio para o meu jardim,
no ar dança um perfume subtil,
Jasmim amarelo doce, quase infantil.
A Lavanda acalma, em lindos tons de azul,
como um abraço que vem do mar, que vem do sul.
O Alecrim, cuidado!, desperta memórias antigas,
e a Madressilva enlaça longas tardes de conversas com amigas.

E na mesa, simples, cheia de vida,
(é tão bom jantar no meu jardim!)
moram aromas de alma e comida:
Tomilho quente, Manjericão fresco,
Coentros vivos num gesto pitoresco.
Hortelã leve, Salsa discreta,
Cebolinho verde... alegria completa!

Assim floresce, entre o cheiro e a cor,
um jardim que é casa, refúgio e amor.


20/04

E agora, para o nosso desafio diário (opcional)! Comece lendo o poema abaixo, escrito por Carl Phillips:

Visto

dessa forma,
através dessa lente onde a necessidade
e o desejo nadam aleatoriamente

um em direção ao outro, se afastam novamente e,
de vez em quando, se encontram, ele se move menos como
um cisne — negro ou de qualquer outra cor — do que como qualquer

homem para quem o sexo é, ou finalmente se tornou,
um sentido adicional pelo qual atravessa, de forma não tão delicada, mas mais
completa, uma vida onde, entre os silêncios,

ele deixa para trás o pouco que lhe resta
em tranças de água, um rastro verde-azulado de "
Por favor" , "Não me machuque" e "Você pode ver que já estou machucado".

Você pode não perceber de imediato, mas o poema é uma única frase! As estrofes de três versos imitam as "tranças na água" do penúltimo verso, e a maneira como os versos se tornam cada vez mais longos também faz com que o poema como um todo se assemelhe um pouco ao rastro que um cisne deixa ao nadar.

Para hoje, tente escrever seu próprio poema usando um animal presente em mitos e lendas como metáfora para algum aspecto da vida de uma pessoa contemporânea. Inclua uma frase falada.


No alto da rotina, como pedra antiga,
ergue-se uma Quimera invisível,
parte ambição, parte receio,
olhos que observam e nunca dormem.

Ela passa os dias a subir 'escadas'
que parecem não levar a lado nenhum, 
mas cansam, fadigam
Altas torres de Notre Dame
repletas de silêncio e ecos de outros tempos.

Dentro dela, a Quimera, muda de forma:
de manhã é sonho, devaneio, desejo,
à tarde é instável, destrutiva, incontrolável,
à noite é monstro, caos, vulcão...

As gárgulas observam,
não são de pedra, mas de pensamentos fixos,
presas às margens da mente,
a ver passar a chuva dos dias.

E no meio da multidão apressada,
ela encosta-se por dentro,
olha para si como quem olha um vitral partido,
e pergunta, quase em segredo:
'Será que ainda me consigo reconstruir?'

A cidade não responde,
Paris, dorme incauta,
mas há algo antigo a ecoar nas paredes de pedra,
catedrais ardem, sim,
mas também se erguem outra vez.

E a Quimera,
híbrida,
incoerente,
imaginária e absurda,
vence o inconsciente,
e, paciente,
não se destrói... transforma-se.

24/04

Finalmente, aqui está o nosso prompt (opcional) para o dia! Em seu poema, “The Flying Nightdress”, Mandakranta Sen descreve algo fantástico e estranho que ocorre enquanto o resto do mundo está dormindo. A imagem do poema é onírica, mas a situação que ele descreve é apresentada de forma bastante direta. Hoje, desafiamos você a escrever seu próprio poema que se passa à noite onde algo mágico ou estranho acontece, mas que ninguém está acordado (ou por perto) para notar.


Sombras

A cidade adormece como um animal antigo, respirando devagar sob o peso da noite. As janelas fechadas guardam sonhos mornos, e as ruas, vazias, parecem esquecer que já foram percorridas por passos apressados. É nesse intervalo invisível, quando o tempo abranda e quase se dissolve, que algo acontece.

No meio de uma praça esquecida, onde uma árvore torta segura o céu com galhos finos, a sombra dela se desprende. Primeiro hesita, como quem testa o próprio corpo, e depois desliza pelo chão de pedra, livre daquilo que a prendia. Caminha sozinha, leve, como se tivesse finalmente aprendido a existir.

As luzes dos candeeiros piscam em silêncio Conversam entre si em códigos breves, trocando histórias antigas que só eles entendem. Um gato que não é exatamente um gato, talvez memória de um, atravessa a rua em silêncio , deixando pegadas que desaparecem antes mesmo de nascerem.

Num prédio qualquer, no quarto de alguém que sonha com o mar, a água começa a subir pelas paredes, transparente e calma, como se o oceano tivesse decidido aparecer. Peixes feitos de luz nadam entre móveis e fotografias, ignorando a gravidade, ignorando o mundo. Quando esse alguém suspira no sono, a maré recua, obediente, levando consigo o sal e o segredo.

E no alto, muito acima do que os olhos fechados poderiam imaginar, as estrelas se reposicionam por um instante, só um instante, formando um desenho que nunca mais se repetirá. Um mapa impossível, um recado que não foi destinado a ninguém acordado.

Depois, tudo volta ao lugar.

A sombra regressa à árvore, cansada e silenciosa. Os candeeiros terminam os seus desabafos. O gato deixa de ter forma. As paredes secam como se nunca tivessem conhecido o mar.

A cidade continua a dormir, alheia.

E o estranho, o mágico, o inexplicável, fiel ao seu hábito, parte, mais uma vez, sem testemunhas.


25/04

E agora para o nosso prompt diário (opcional)! Em seu poema, “A Macieira em Flor”, Melissa Kwasny une várias metáforas fantásticas para a macieira, antes de mudar para exclamações, definições e uma série de mudanças ágeis e tonais - e mudanças aparentes de tópico - antes de voltar para a macieira. O desafio de hoje pede que você escreva seu próprio poema no qual você use pelo menos três metáforas para uma única coisa, inclua uma exclamação, rumine sobre a definição de uma palavra e volte na linha final para a imagem ou ideia com a qual você abriu o poema.

Vinho Branco

Começo com um copo de vinho sobre a mesa,

vinho branco
tão simples, tão quieto.

É um espelho imóvel onde o mundo hesita,
um pulmão transparente que respira luz,
um relógio líquido que não marca horas, apenas sede,

e vontade de esquecer.

Bebo-o devagar
Como quem tenta compreender o silêncio.

O mundo

O abandono!

Mas o que é, afinal, “transparente”?
Será aquilo que não se vê,
ou aquilo que se deixa ver através de si?
Transparente: talvez uma promessa de ausência,
ou um excesso de presença tão puro
que se torna invisível.

E o vinho continua ali,
ensinando sem voz,
sem pressa,
sem forma fixa.

No fim, volto ao princípio:
um copo de vinho sobre a mesa,

vinho branco,
quieto como um segredo que ninguém ainda perguntou.


26/04

E agora para o nosso prompt (opcional, como sempre). O latim phrasears poetica significa “a arte da poesia”. Tem sido uma tradição que volta a Horácio para os poetas escreverem poemas que estabelecem - explícita ou obliquamente - alguma declaração sobre por que o poeta escreve, ou o que eles acham que é poesia. Aqui está um exemplo muito recente, outro que tive que estudar na escola, e uma poesia muito longa e espirituosa de Alexander Pope. Hoje, desafiamos você a escrever sua própria poesia, dando ao leitor alguma visão sobre o que o mantém escrevendo poesia, ou o que você acha que a poesia deve fazer.


Luz

Escrevo porque há coisas que não cabem no dia.

Há um excesso no mundo, ruído, pressa, notícias que caem como chuva ácida sobre o espírito, e a poesia surge como um gesto pequeno, quase teimoso, de recusa. Recusa em aceitar que tudo seja apenas funcional, imediato, descartável. Escrever é atrasar o tempo o suficiente para que uma sensação respire.

Talvez o que me mantém a escrever seja essa espécie de fenda: um lugar onde o que dói não desaparece, mas se transforma. A poesia não cura os males do mundo, não impede guerras, não corrige injustiças, não alimenta quem tem fome, mas cria um espaço onde essas feridas podem ser vistas sem anestesia. E isso, de algum modo, já é uma cura.

Vivemos rodeados de excesso e ausência ao mesmo tempo: excesso de informação, ausência de sentido; excesso de ligação, ausência de encontro. A poesia, quando acontece, faz o contrário, concentra, depura, aproxima. Dá nome ao que era difuso. E às vezes, só nomear já é resistir.

Escrevo porque há palavras que pedem corpo.
Porque há silêncios que não se deixam calar
Porque há dias em que o mundo parece gasto demais, e é preciso reinventá-lo numa linha.

E talvez a poesia deva fazer isso: não salvar, mas sustentar.
Não resolver, mas revelar.
Ser uma pequena luz, não para iluminar tudo, mas para impedir a escuridão de ser total.


27/07

Por último, mas não menos importante, aqui está a sugestão (opcional) de hoje. Comece lendo o poema de Robert Fillman, “ There should always be two” (Sempre deveria haver dois ). Agora, escreva seu próprio poema em que todos os versos tenham o mesmo número de linhas (sejam dísticos, tercetos, quadras, etc.) e no qual você dê instruções ao leitor de alguma forma.


Abre a Janela

Abre a janela devagar e repara na luz,
não penses ainda em nada, apenas observa,
coloca a mão no peito e sente o ritmo,
deixa que o mundo entre sem pedir licença.

Agora caminha pela casa em silêncio,
toca nos objectos como se fossem novos,
escuta o eco dos teus próprios passos,
e pergunta-te quem és neste instante.

Escreve uma palavra numa folha em branco,
não a julgues, não a corrijas já,
repete-a até perder o sentido,
e vê o que nasce do seu vazio.

Se encontrares tristeza, não a afastes,
dá-lhe uma cadeira e um nome provisório,
olha-a nos olhos como quem aprende,
e agradece-lhe por ter vindo.

Por fim, fecha a janela com cuidado,
leva contigo apenas o que mudou,
guarda este momento como quem acende lume,
e quando esqueceres, começa de novo.


28/04

E agora para o prompt de hoje  O poema de Victoria Chang, “The Lovers”, é curto e um tanto chocante, nos levando rapidamente de uma declaração descritiva quase alucinatória para um tipo estranho de pergunta, antes de terminar na declaração muito direta de uma “verdade”. Seis linhas, três frases e, para completar, um título que eu acho que funciona para o poema, mas está apenas obliquamente relacionado ao seu texto. Hoje, tente escrever um poema que siga as mesmas batidas: três frases, seis linhas: declaração, pergunta, conclusão


Tempo

Declaro que o tempo corre manso
como um rio que finge não saber do mar.

Pergunto se o teu olhar ainda me chama
ou se já se perdeu noutra margem qualquer.

Concluo que, mesmo sem resposta, fico
a escutar o silêncio como quem espera.


29/04

Finalmente, aqui está o prompt de hoje (opcional, como sempre). Em “After Turning the Clocks Back”, Jennifer Moxley liga o presente ao passado, usando alguns detalhes bem colocados para invocar tanto um senso do "agora" diário quanto um senso nostálgico da vida antiga do orador. Em seu poema de hoje, compare da mesma forma sua vida cotidiana e presente com o seu eu passado, usando detalhes específicos para conjurar aspectos do seu passado e presente na mente do leitor.


Depois de desligar o despertador 

Acordo com o toque do telemóvel a vibrar na mesa de cabeceira, e penso no tempo em que o meu despertador era a luz tímida que entrava pelas frinchas da persiana. 
Antes, o mundo começava devagar: o cheiro do café feito na cafeteira antiga, o ranger do chão de madeira sob os pés descalços, o silêncio quase completo de uma casa ainda meio adormecida.

Agora, o dia começa já cheio, notificações e preocupações que nos assaltam a mente, ainda antes de levantar.

Bebo o café à pressa, quase sem reparar no sabor. O tempo parece correr mais rápido, como se estivesse sempre um passo à frente de mim. Sinto que estou sempre atrasada…

Lembro-me de quando o tempo se esticava como tardes de verão. Eu ficava sentada na rua, ou no meu jardim, a observar as sombras a mudar de lugar, a ouvir os risos das crianças, sem urgência. As mãos sujas de terra, os joelhos esfolados, os bolsos cheios de pequenas descobertas sem valor, mas que pareciam tesouros. Para mim eram…

Hoje, as mãos seguram o volante do carro que me leva ao trabalho, teclas, papéis, decisões. Já não coleciono pedras ou folhas secas, mas acumulo listas, ideias, preocupações. 

E ainda assim, às vezes, encontro um instante, no meio do trânsito, ou numa pausa inesperada,  em que o presente abranda. Nesse momento, quase consigo ouvir o eco daquele eu antigo, mais leve, mais atento.

Não sou a mesma, claro. Mas também não a perdi completamente. Ela vive nos detalhes que ainda me escapam, na forma como, de vez em quando, paro para olhar o céu como se fosse a primeira vez.


30/09


E agora, aqui está o prompt final (opcional) deste ano. Em seu poema, “Anjos”, Russell Edson fala desses guerreiros-mensageiros-guardiões espirituais como se fossem um tipo de animal ameaçado de extinção. Por mais breve que seja, o poema é desorientador em seu uso de dicção achatada, símiles estranhos e declarações elípticas. Hoje, tente escrever seu próprio poema que discuta um ser ou profissão real ou mítico (demónios, bombeiros, bombeiros demoníacos) com o mesmo tipo de tom ponderado, mas desapaixonado.


Polícias e Dragões 

No turno da noite, o agente patrulha ruas vazias, conta passos, observa janelas, regista rotinas.

Carrega leis como mapas dobrados no bolso,
e uma lanterna que não distingue intenções, só formas.

Do outro lado, numa clareira que não consta em mapas,
um dragão mede o tempo pelo ar quente que respira.
Guarda não cofres, mas histórias antigas,
e pesa o mundo em escalas que não cabem em códigos.

O polícia fala de protocolos, de causa e efeito,
de relatórios que fixam o que aconteceu.
O dragão responde com silêncio e cinza,
onde o que foi dito se perde antes de existir.

Ambos vigiam, um a ordem, outro a memória.
Um intervém, outro permanece.
Entre sirenes e asas, não há confronto direto,
apenas duas formas de manter distância do caos.

No fim, nenhum convence o outro.
A cidade acorda, a floresta continua.
E entre o que pode ser provado e o que apenas persiste,
fica um espaço neutro, onde nenhum dos dois existe.















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